A Anthropic concluiu, em estudo interno sobre seus próprios funcionários, que a atenção humana passou a limitar a produção dos agentes de inteligência artificial. Segundo a InfoMoney, em texto com conteúdo da Fortune publicado nesta terça-feira (20), cerca de 80% do tempo total das sessões com o Claude é gasto esperando uma intervenção de uma pessoa.
O dado de maior peso é a divisão do trabalho. Em março, as horas executadas por agentes superaram, pela primeira vez, as horas trabalhadas por humanos na empresa. Em agosto, a proporção chegou a seis horas de agentes para cada hora humana.
O que mudou na rotina de quem supervisiona
Entre engenheiros de software, os envios de código cresceram cinco vezes nos últimos seis meses. A fatia das interações com o Claude dedicada ao que o estudo chama de meta-trabalho, ou seja, gerenciar os próprios agentes, subiu de 10% para 22%.
Para funcionários não técnicos, só ler tudo o que os agentes produzem consumiria cerca de metade da semana. O funcionário mediano passa 20% mais tempo em reuniões do que há um ano, e entre os técnicos o aumento é de 16%. O documento afirma que a aceleração faz da atenção humana o gargalo da produção dos agentes.
Um funcionário descreveu a experiência como um exército de Claudes, cada um pedindo sua atenção. Outro disse que os 20% do trabalho que eram estratégicos passaram a representar 90% da função. Um terceiro relatou uma pressão permanente na empresa para avançar o mais rápido possível e usar o Claude para tudo.
Quem perde espaço na contratação
A Anthropic tem mais de 3.500 funcionários. Os que têm ao menos um ano de casa tiveram, em 2026, 50% mais chance de trocar de departamento do que em 2025. Uma equipe de design de produto que escrevia textos para o site, incluindo mensagens exibidas no Claude.ai, passou a usar IA para isso e migrou para criar avaliações e prompts para os modelos da empresa.
O efeito mais direto aparece nos cargos de entrada. A participação de juniores nos departamentos técnicos caiu de 21% para 14% desde o início de 2025. Nas novas contratações técnicas, a queda foi de 27% para 9%. Segundo o estudo, gestores passaram a valorizar mais autonomia e capacidade de julgamento do que conhecimento técnico específico.
Em agosto, funcionários da Anthropic estimaram que a IA poderá fazer 75% de suas atividades até 2030. Em pesquisa separada, outros trabalhadores americanos projetaram 28%. Levantamentos citados pela reportagem apontam o receio dos mais jovens: 51% da geração Z vê a IA como a maior ameaça à sua segurança profissional, segundo a iCIMS, e quase um em cada cinco teme perder o emprego para a tecnologia em dois anos, de acordo com o Deutsche Bank Research.
O que vale para outras empresas
A própria reportagem faz uma ressalva: não está claro se a realidade da Anthropic representa o futuro da maioria das empresas. A companhia tem recursos financeiros incomuns, adota IA em profundidade e se prepara para um possível IPO.
Para o gestor brasileiro, o recado prático está na medição. Se o limite passa a ser quantas decisões uma pessoa consegue revisar por dia, o ganho de produtividade depende de quem revisa, e não só de quantos agentes a empresa liga. E a porta de entrada da carreira, o trabalho júnior, é a que se estreita primeiro, como mostram os números de contratação da própria Anthropic.



