O emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos caiu 13% em relação a outros grupos nas ocupações mais expostas à inteligência artificial, desde que a IA generativa se popularizou. O número vem de um estudo do Stanford Digital Economy Lab, feito com registros de folha de pagamento nos Estados Unidos, e foi citado em reportagem da Exame publicada nesta segunda-feira (19) sobre um debate promovido pela InHire.
De acordo com o estudo, profissionais mais experientes nas mesmas funções ficaram estáveis ou ampliaram o emprego. A queda se concentra onde a tecnologia substitui tarefas, e não onde auxilia o trabalho humano. São tarefas rotineiras e operacionais, as mesmas que costumavam abrir a porta da carreira.
Uma década sem formar sucessores
O debate trouxe uma questão de gestão: se as empresas só aprovam perfis seniores, quem vai ocupar as lideranças daqui a cerca de dez anos? Lívia Kuga, cofundadora da Alia, afirmou que deixar de contratar talentos em formação é um erro de visão. Segundo ela, interromper essa formação prejudica a sociedade, e não só as empresas.
Kuga também enxerga vantagem naquilo que costuma ser visto como defeito do júnior. A falta de experiência facilita a adoção de processos desenhados desde o início com IA. Nas palavras dela, "as pessoas mais novas não têm vícios ainda", o que a executiva considera positivo.
Onde a IA mexeu no trabalho técnico
A carreira em tecnologia mostra a mudança com mais nitidez. O desenvolvedor que passava o dia escrevendo e corrigindo código perdeu espaço para a automação, e o valor passou para funções ligadas a produto, que pedem visão de negócio, coordenação de ferramentas e contato com o cliente.
Augusto Frazão, CEO da InHire, disse que a execução ocupava o centro da tarefa, com muito código e muito texto. Hoje, segundo ele, pesam mais o julgamento, a orquestração e o relacionamento, habilidades que ele julga mais valiosas do que a capacidade de executar em volume.
David Pires, CIO e CPO da Zig, contou o próprio caso. Programador há anos, ele parou de escrever código e passou a coordenar o trabalho feito por ferramentas. Afirmou ter colocado em produção mais de 10 ou 20 itens por semana, enquanto participava de reuniões e cuidava de outras atividades.
Contratação presa a 2024 e o papel do RH
Frazão apontou um descompasso entre o que as empresas pedem e o que cobram. Em fala reproduzida pela Exame, o CEO da InHire afirmou:
De acordo com Frazão, a maior parte das equipes atuais foi contratada com premissas operacionais antigas. Por isso, líderes e áreas de RH precisam conduzir a requalificação interna. Ele recomenda que gestores gastem mais tempo definindo o perfil do cargo do que tocando as etapas da seleção no automático, e que testem o que a pessoa fará e um agente de IA não faz.
A reportagem registra que muitas empresas já usam IA em etapas do recrutamento, mas poucas revisaram as descrições de cargo para incluir as competências que a tecnologia passou a exigir. Em casos extremos, candidatos são proibidos de usar ferramentas de IA em testes práticos para funções que as exigirão o tempo todo.
Na prática, o júnior de hoje disputa vagas com ferramentas que fazem o trabalho operacional, e quem recruta ainda mede essa disputa com critérios de 2024. Para as empresas, rever o cargo e o teste de seleção é o primeiro passo para decidir se continuam formando gente ou se passam a comprar só experiência pronta.



