A inteligência artificial reduz a necessidade de pedir ajuda a colegas e, com isso, desgasta a confiança e a coordenação nas equipes, segundo estudo com 1.033 profissionais de escritório em tempo integral nos Estados Unidos. A pesquisa foi apresentada em artigo da Harvard Business Review, republicado pelo InfoMoney nesta quinta-feira (22). Os participantes trabalham em equipes de projeto de mais de 20 setores.
Os autores se apresentam como pesquisadores de psicologia e estudiosos da comunicação, mas o texto republicado não os identifica pelo nome. Eles argumentam que a IA aumenta a autonomia de cada pessoa e enfraquece as trocas que sustentam o trabalho em grupo.
O que a pesquisa encontrou
Quanto mais os trabalhadores usavam IA, ou percebiam que o time inteiro a usava, mais passavam a achar que os colegas tinham conhecimentos especializados e únicos. Ao mesmo tempo, quanto mais recorriam à máquina em vez de consultar uma pessoa, mais a confiança mútua e a coordenação pareciam se deteriorar.
Os pesquisadores deram um nome ao efeito: "escorregamento relacional" (relationslipping, no original). A pessoa consulta a IA no lugar do colega, mas continua visível na equipe. Não há ruptura aberta, só menos conversa.
Um consultor de TI entrevistado descreveu a lógica assim:
"A IA tornou meu trabalho mais fácil, então posso focar mais em trabalhar sozinho."
Contato diário muda o resultado
O estudo também identifica o que pode reverter o quadro. Entre quem usa IA com frequência, a coordenação subiu 28% e a confiança 19% quando havia contato diário com a equipe. O texto republicado não informa a base de comparação desses percentuais, o que limita a leitura dos números.
Mensagens assíncronas, como Slack, e-mail e Teams, ajudam a acompanhar o que os colegas estão fazendo. Segundo os autores, equipes multifuncionais, que já partem de vínculos mais frágeis, têm mais risco de formar novos silos.
Quem paga a conta nas empresas
Os pesquisadores afirmam que hoje os funcionários são avaliados sobretudo pela produtividade individual com IA. Esse critério empurra cada um a trabalhar sozinho e alimenta o problema descrito no estudo.
Os autores recomendam criar normas e incentivos que valorizem resultados coletivos, ampliar a comunicação assíncrona e construir segurança psicológica, de modo que pedir ajuda a um colega pareça tão seguro quanto abrir um chatbot. Sugerem também usar a IA para preparar conversas difíceis, e não para substituí-las. Em pesquisas anteriores, citam, uma simulação de cinco minutos com IA reduziu a ansiedade e aumentou a confiança e a sensação de preparo.
Para o gestor brasileiro, o dado serve de alerta sobre metas: se o bônus depende só da entrega individual com IA, o custo de coordenação aparece depois, em retrabalho e em projetos que dependem de várias áreas.



