A divisão americana de consultoria da KPMG adotou um sistema que fixa uma meta de uso de IA de 75% para boa parte de seus cerca de 10 mil profissionais, segundo o portal HRKatha, citado pela Exame em reportagem publicada nesta sexta-feira (16). Os funcionários também podem comparar os próprios números com os dos colegas.
A medida veio depois de cortes de pessoal na divisão. Parte dos empregados questiona se a frequência de uso mede alguma coisa relevante sobre a qualidade do trabalho entregue.
Quando o painel vira cobrança
O caso da KPMG ilustra uma prática que se espalha: transformar o uso de IA em indicador individual, visível para o chefe e para os pares. A Exame relata que a Meta também chegou a considerar esse uso nas avaliações de desempenho. Em setembro, de acordo com a revista WIRED, a empresa avisou aos funcionários que as avaliações deixariam de levar isso em conta. A nova orientação diz que resultados podem ser obtidos com apoio de IA ou por outros meios.
A recuperação de rumo da Meta convive com um efeito colateral que já tem nome. O termo "tokenmaxxing" descreve o hábito de usar mais IA do que o necessário apenas para inflar a própria estatística de uso.
O que a pesquisa da Visier encontrou
A Visier, empresa de análise de dados sobre pessoas, ouviu 1.000 trabalhadores em tempo integral nos Estados Unidos. Do total, 48% admitiram ter exagerado o uso ou o conhecimento de IA diante de colegas ou chefes. O relatório chama o comportamento de "IA performática".
Outros 45% disseram sentir pressão para usar a tecnologia sem confiança de que sabem fazê-lo bem. As medidas mais pedidas pelos entrevistados foram treinamento e transparência por parte da liderança. A Visier recomenda que as empresas priorizem essas duas frentes antes de esperar ganhos de produtividade.
Andrea Derler, pesquisadora da Visier, afirmou que a adoção não pode ser medida apenas pelo número de pessoas que usam uma ferramenta ou pela frequência. Sem outros critérios, disse, o painel pode registrar apenas o cumprimento da regra.
O que isso muda para quem gerencia equipes
As empresas veem o painel como forma de acompanhar a adoção e justificar o investimento em licenças e treinamento. Os trabalhadores respondem que contar acessos não mostra o que foi entregue. A divergência é a mesma nos dois lados do Atlântico: o indicador mais fácil de medir não é necessariamente o que revela ganho de produtividade.
Para o gestor brasileiro, o ponto prático é a escolha da métrica. Uma meta de percentual de uso premia quem abre a ferramenta, enquanto uma meta de resultado (prazo cumprido, erro evitado, custo reduzido) exige mais trabalho para ser definida, mas não incentiva o exagero. A pesquisa da Visier foi feita com americanos, e não há dado equivalente para o Brasil na reportagem, mas a pressão descrita nasce de uma decisão de gestão que qualquer empresa pode repetir.



