Clientes corporativos esperam que os escritórios de advocacia usem inteligência artificial, e a maioria não vê isso acontecer. É o que mostra o relatório Future of Professionals 2026, da Thomson Reuters, divulgado nesta semana e noticiado pelo InfoMoney neste domingo (18). Segundo o estudo, 78% dos clientes consideram muito importante ou essencial que seus prestadores usem a tecnologia para melhorar a qualidade do serviço, mas só 6% afirmam que a maioria ou todos os fornecedores atendem a essa expectativa.
A distância já tem efeito sobre contratos. De acordo com o levantamento, 32% dos clientes pretendem reavaliar o relacionamento com prestadores nos próximos 12 meses. Entre esses, um terço estima que mais de US$ 1 milhão em contratos anuais esteja sujeito a revisão. Nos Estados Unidos, a Thomson Reuters calcula cerca de US$ 143 bilhões em contratos jurídicos e contábeis sob reconsideração ativa, e a própria empresa ressalva que o número não projeta perda efetiva de receita.
O que os advogados da América Latina admitem
Do lado de quem presta o serviço, o uso já é rotina. Na América Latina, 84% dos profissionais jurídicos usam alguma ferramenta de IA pelo menos uma vez por semana, mas só 48% têm acesso a soluções desenvolvidas para a atividade profissional. Outros 34% reconhecem usar ferramentas que a organização não aprovou.
A frustração é grande: 87% relatam diferença entre o que esperavam da tecnologia e o que obtiveram. Dois em cada três entrevistados acreditam que o escritório pode perder clientes se não demonstrar o valor da IA, e 49,9% esperam que isso aconteça em até dois anos. A pesquisa mede expectativa, e não comprova que as perdas já ocorram nessa proporção.
Sigilo e fonte: o que o cliente cobra
Segundo a pesquisa, 96% dos profissionais da região dizem que as ferramentas devem proteger dados confidenciais, 94% exigem respostas amparadas em fontes confiáveis e 90% consideram necessário que o resultado possa ser explicado e defendido. Rodrigo Hermida, vice-presidente de Legal Professionals para a América Latina na Thomson Reuters, afirmou que o padrão de avaliação subiu e que declarar o uso de IA já não basta: o cliente quer saber se pode confiar na maneira como os advogados a empregam.
Hermida também disse que comprar ferramentas não garante retorno financeiro, que os ganhos crescem quando a tecnologia está integrada aos processos internos e que o sigilo precisa estar na arquitetura da solução, e não só no cuidado individual de cada advogado. A responsabilidade pelo trabalho, afirmou, continua com o profissional.
Quem paga a conta dos honorários por hora
O ponto mais sensível é o preço. De acordo com o relatório, 71% dos profissionais de departamentos jurídicos esperam que os escritórios mudem o modelo de negócios e a cobrança por hora conforme a IA avança. Já 62% dos profissionais de escritórios dizem que a estrutura de precificação segue igual.
O mercado brasileiro tem escala para sentir a pressão. O Conselho Nacional de Justiça registrou 40,9 milhões de novos processos em 2025, e o ano terminou com 75,5 milhões de ações em tramitação. A Ordem dos Advogados do Brasil tem mais de 1,5 milhão de advogados inscritos. Em um ambiente com tanto volume e tanta oferta, o cliente tem opções para trocar de escritório.
A Thomson Reuters aproveita o momento para vender a solução. O Brasil será o primeiro mercado latino-americano a receber a nova versão do CoCounsel Legal, com acesso antecipado previsto para o fim de outubro e disponibilidade geral em novembro. A ferramenta será integrada ao Westlaw Brasil e ao conteúdo da Revista dos Tribunais, poderá analisar até 10 mil documentos e responder a até 100 perguntas simultâneas, com referência às fontes consultadas. Para o diretor jurídico que contrata, o teste passa a ser objetivo: o escritório precisa mostrar quanto a tecnologia reduziu de prazo e de custo, e repassar parte disso na fatura.



