quinta-feira, 15 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Juiz de Connecticut cita decisão do TRT-8 que multou advogadas em R$ 84,2 mil por truque contra IA

Juiz da 3ª Vara do Trabalho de Parauapebas (PA) multou duas advogadas em R$ 84,2 mil por esconder em petição um texto que mandava a IA do tribunal analisar o caso de forma superficial. A sentença agora serve de precedente para a Corte Superior de Connecticut.

Martelo de juiz ao lado de um notebook em uma sala de tribunal
Decisão da Justiça do Trabalho no Pará foi usada como referência por um magistrado americano em caso de uso ilegal de inteligência artificial. Foto: Pexels / Sora Shimazaki

Uma decisão da Justiça do Trabalho no Pará foi citada por um juiz dos Estados Unidos para punir o uso ilegal de inteligência artificial, segundo reportagem da CNN Brasil publicada nesta quinta-feira (15). O magistrado Walter M. Spader Jr. da Corte Superior de Connecticut, recorreu ao precedente brasileiro porque não encontrou decisões estaduais ou federais americanas sobre o tema.

A sentença original é de maio de 2026 e partiu do juiz Luiz Carlos de Araújo Santos Júnior, da 3ª Vara do Trabalho de Parauapebas, vinculada ao TRT-8. Ele multou duas advogadas em R$ 84,2 mil por inserirem comandos ocultos em um documento judicial.

O texto invisível dentro da petição

Os comandos estavam escritos em letras brancas sobre fundo branco, o que os tornava invisíveis para quem lia a peça na tela. A mensagem se dirigia diretamente à máquina e pedia que a inteligência artificial contestasse a petição de forma superficial e não impugnasse os documentos anexados.

A técnica é conhecida no setor como prompt injection: o autor esconde instruções em um conteúdo que será lido por um modelo de IA, na tentativa de desviar o resultado da análise. No caso paraense, o alvo era o Galileu, ferramenta de IA generativa desenvolvida pelo TRT-4 em parceria com o STF.

O Galileu auxilia magistrados e servidores da Justiça do Trabalho na elaboração de minutas de sentenças. Ele examina petições iniciais, contestações, atas de audiência e laudos periciais, identifica questões de direito material e processual e gera um relatório com proposta de decisão, subsídios sobre o caso e textos-padrão.

Quem detectou e quem puniu

A própria ferramenta percebeu o texto escondido e emitiu um alerta. De acordo com o TRT-4, ela não classificou a conduta nem sugeriu providências. As medidas seguintes foram tomadas por pessoas, depois da verificação do aviso.

O juiz brasileiro afirmou que o objetivo da sanção não é combater o uso de IA, e sim coibir práticas inadequadas ou abusivas que comprometam a boa-fé processual. Sobre a repercussão nos Estados Unidos, disse que a referência à decisão por um magistrado americano mostra que a preocupação é compartilhada.

No processo americano, Spader Jr. aplicou sanção a Matthew Elliott, que atuava sem advogado, por uso ilegal de inteligência artificial. A reportagem não informa o valor da penalidade imposta a Elliott nem o número do processo brasileiro.

O que a decisão sinaliza para advogados

Para quem litiga, o recado prático é que tribunais brasileiros já usam IA para triar e analisar peças, e que tentar manipular esse filtro tem custo financeiro. A multa de R$ 84,2 mil, aplicada a duas profissionais, mostra que a Justiça tratou o expediente como violação da boa-fé processual, e não como detalhe de formatação.

Para os tribunais, o episódio indica que ferramentas como o Galileu precisam conseguir detectar instruções ocultas e que a decisão final continua com o magistrado. Com o precedente agora citado fora do país, a sentença do Pará pode ser invocada em outras jurisdições que ainda não têm jurisprudência sobre o assunto.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.