A Anthropic, dona do assistente Claude, teve prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, de acordo com uma versão preliminar do prospecto de sua oferta pública inicial (IPO) analisada pela agência Reuters e divulgada nesta quarta-feira (21). No mesmo período de 2025, a perda tinha sido de US$ 13 bilhões.
O número assusta, mas a maior parte dele não é dinheiro que saiu da empresa. Segundo o documento, a alta veio principalmente do aumento no valor justo de títulos conversíveis, papéis que podem virar ações da Anthropic no futuro. Essa reavaliação gerou uma despesa contábil de US$ 72 bilhões, descrita no prospecto como custo que não é em dinheiro e não está ligado às operações.
Onde está a diferença entre prejuízo e caixa
Quando uma startup avança rumo ao IPO e seu valor sobe, os papéis que podem ser convertidos em ações também ficam mais valiosos. Pela regra contábil, essa valorização entra como despesa no resultado, embora a empresa não desembolse nada. Por isso a perda líquida pode crescer na mesma velocidade em que a avaliação da companhia sobe.
Tirando os US$ 72 bilhões, sobram cerca de US$ 8,7 bilhões de prejuízo (cálculo feito pela reportagem com base nos números divulgados). A Reuters não informa a receita da Anthropic no período, e o texto não detalha de que se compõe esse restante. Sem a receita, não é possível medir quanto do resultado operacional vem de custos e quanto de vendas.
A Anthropic, com sede em San Francisco, tem a estreia na bolsa prevista para novembro. A empresa não respondeu ao pedido de comentário da Reuters. O caso já tinha sido tratado aqui quando a empresa chegou ao IPO com gasto projetado de US$ 42 bilhões; o fato novo é o resultado do semestre.
Infraestrutura pesa mais a cada trimestre
O prospecto mostra que a companhia gastou quase US$ 9 bilhões em capacidade de computação e infraestrutura no semestre. Um ano antes, o valor era de US$ 2,3 bilhões, ou seja, o gasto ficou perto de quatro vezes maior.
Os compromissos futuros são maiores ainda. A Anthropic assumiu o dever de gastar ao menos US$ 518 bilhões ao longo de dez anos com serviços de nuvem, computação e infraestrutura. É uma obrigação contratual de longo prazo que o investidor passa a enxergar de forma explícita no documento.
O que o investidor decide com esses números
Segundo a Reuters, os dados reforçam o debate sobre o custo da corrida da IA. Investidores analisam se as somas aplicadas em chips e data centers vão gerar retorno suficiente. A agência também informou na semana passada que alguns investidores consideram um valor de mercado menor, em torno de US$ 1,5 trilhão, depois das novas divulgações financeiras.
Para quem vai comprar ações em novembro, a leitura prática é separar duas contas: o ajuste contábil de US$ 72 bilhões, que não consome caixa, e os US$ 518 bilhões em compromissos, que consomem. Para fornecedores de nuvem e chips, o prospecto indica o tamanho da demanda contratada por uma única cliente. A versão final do documento, com a receita e outros dados, deve trazer o que falta para fechar essa conta.



