A Disney planeja contratar mais de 60 funcionários da Character.AI e prevê gastar cerca de US$ 180 milhões em remuneração e incentivos de retenção ao longo de três anos, segundo reportagem da Exame publicada neste domingo (18). A startup de personagens feitos com inteligência artificial foi criada pelo brasileiro Daniel de Freitas e pediu proteção contra credores nos Estados Unidos.
A Character Technologies, dona da plataforma, entrou com o pedido no capítulo 11 da lei de falências americana em 12 de outubro, em um tribunal de Delaware. O serviço continua no ar enquanto a empresa procura um comprador. A própria companhia admite que pode encerrar a plataforma se ninguém quiser mantê-la funcionando.
O que a Disney leva e o que fica de fora
A Disney oferece US$ 20 milhões por uma licença perpétua e não exclusiva de parte da propriedade intelectual da Character. A proposta não inclui a compra da plataforma de chatbots. A licença ainda precisa de aprovação da Justiça, e a Disney já pagou US$ 7,5 milhões do total. Os US$ 180 milhões previstos para a equipe incluem US$ 30 milhões em bônus. A Disney não comentou a reportagem.
As duas empresas já tiveram atrito. Em setembro de 2025, a Disney notificou a Character para exigir a retirada de chatbots baseados em suas propriedades sem autorização. Em setembro deste ano, anunciou a contratação de Karandeep Anand, então CEO da startup, como seu primeiro diretor de tecnologia. Ele assumiu o cargo em outubro.
Do valor de US$ 1 bilhão ao pedido de proteção
Daniel de Freitas formou-se em engenharia da computação na USP em 2011 e passou pelo Bing, da Microsoft, e pelo Google, onde liderou o desenvolvimento do LaMDA, um modelo de linguagem conversacional. No Google, conheceu o americano Noam Shazeer. Os dois saíram em 2021 e fundaram a Character.AI. Em 2023, a startup foi avaliada em US$ 1 bilhão, e a Forbes apontou Freitas como o primeiro brasileiro a se tornar bilionário com IA.
Em agosto de 2024, um acordo de licenciamento levou Freitas, Shazeer e parte da equipe de volta ao Google. Freitas trabalha hoje no Google DeepMind e não comanda mais a Character.
Processos e exigências a quem comprar
Em 2024, uma mãe da Flórida processou a empresa depois que o filho de 14 anos morreu por suicídio. A ação sustenta que ele havia desenvolvido uma relação de dependência com um chatbot baseado em um personagem de Game of Thrones. Em janeiro, a Character fechou acordos preliminares em cinco ações de famílias, que, segundo a Reuters, ainda não tinham sido finalizados nem pagos. A empresa também proibiu menores de 18 anos de conversas abertas com os chatbots.
Investigações de autoridades estaduais seguem abertas, e a Character diz negociar com os órgãos. Em 14 de outubro, procuradores-gerais de estados americanos pediram que qualquer comprador adote verificação de idade efetiva e bloqueie o acesso de crianças a conteúdo sexual, violento ou nocivo.
Prazos que decidem o destino da plataforma
Se outros interessados aparecerem, haverá um leilão em novembro. A empresa espera concluir a venda dos ativos no fim de novembro ou no início de dezembro. Como a oferta da Disney cobre apenas parte da propriedade intelectual e a equipe, o futuro da plataforma e dos seus usuários depende de um comprador disposto a assumir o serviço e as exigências dos procuradores.



