A Character.AI, plataforma americana em que o usuário conversa com chatbots que imitam personagens de ficção e celebridades, pediu recuperação judicial nos Estados Unidos e quer concluir a venda da empresa até o fim do ano, sob supervisão da Justiça. A informação consta de reportagem da CNN Brasil publicada nesta terça-feira (20), com dados da CNN americana, e foi detalhada pelo TechCrunch em 13 de outubro.
O pedido foi feito sob o Chapter 11 da lei de falências americana. Em documento judicial, citado pelo TechCrunch, a empresa informou ativos e passivos entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. O CEO, Colin Adams, afirmou que o processo de venda conduzido pelo tribunal oferece a melhor chance de maximizar o valor da companhia.
A oferta da Disney e o prazo da venda
A Disney aparece como principal interessada. Segundo o TechCrunch, a empresa apresentou proposta de US$ 20 milhões por parte dos ativos, mais uma licença perpétua e não exclusiva da tecnologia. Essa oferta funciona como piso: outros interessados podem cobrir o valor durante o processo. A CNN Brasil, por sua vez, descreve a Disney como estudando uma oferta de mesmo valor (cerca de R$ 101 milhões) pela propriedade intelectual, com promessa de contratar os atuais funcionários.
As duas reportagens divergem no grau de compromisso da Disney, e nenhuma delas indica comprador fechado. O TechCrunch informa que, até agora, não há lance concorrente. A conclusão da venda está prevista para o fim de novembro ou o início de dezembro. Karandeep Anand, ex-CEO da Character.AI, assumiu em setembro o cargo de chefe de tecnologia da Disney, segundo a CNN Brasil.
Adams disse que o serviço continua no ar durante o processo. Se não surgir proposta viável, a plataforma será desativada, e ainda não há data para isso.
De unicórnio a Chapter 11 em cinco anos
O TechCrunch lista a trajetória da startup: avaliação de unicórnio após rodada de US$ 150 milhões em setembro de 2022, mais de 1,7 milhão de instalações na primeira semana do app, em maio de 2023, e 20 milhões de usuários ativos por mês em outubro de 2024. Em agosto de 2024, firmou com o Google um acordo de licenciamento de US$ 2,7 bilhões. No total, segundo a PitchBook, captou mais de US$ 193 milhões.
O histórico jurídico pesa. Em 2024, a americana Megan Garcia processou a empresa, alegando responsabilidade pela morte do filho de 14 anos por suicídio. Outras famílias também entraram na Justiça. No início de 2026, a Character.AI fechou acordos em cinco casos, incluindo o de Garcia, e passou a aplicar restrições por idade em algumas funções e a enviar links para atendimento psicológico, segundo a CNN Brasil.
Quem perde com o encerramento
Entre os usuários, a reação é de ansiedade. No Reddit, um deles disse que a ameaça de perder o aplicativo afetava seu sono e seu apetite, e chamou a dependência de vício. Outros planejam levar seus bots favoritos para plataformas concorrentes, e moderadores das comunidades divulgaram recursos de saúde mental oferecidos pela própria empresa.
Para quem tem assinatura paga, nada muda por ora. Usuários podem apagar a conta ou baixar seus dados pelo app ou pelo site. A questão que fica em aberto é o destino das conversas: de acordo com a cobertura citada, a Character.AI não prometeu que a política de privacidade atual seguirá valendo com um novo dono, ao contrário do que a 23andMe havia garantido em sua própria falência.
Para o mercado, o caso mostra que 20 milhões de usuários ativos não bastaram para sustentar a operação diante de custos e processos. Empresas brasileiras que lançam companheiros virtuais ou chatbots de personagem, e os reguladores que discutem regras para esse tipo de produto, passam a ter um exemplo concreto de risco financeiro e jurídico.



