A China virou líder em publicações científicas de alto nível e já gasta mais que os Estados Unidos em pesquisa e desenvolvimento quando se ajusta o valor pela paridade do poder de compra. Os números, reunidos em reportagem da Exame publicada nesta quinta-feira (15), vêm de bases como Scopus, Nature Index e OECD e mostram uma virada que levou quatro décadas.
Em 1978, pesquisadores chineses publicaram menos de 120 artigos em periódicos internacionais, cerca de 0,02% da produção mundial, segundo a base Scopus, da Elsevier. Em 2023, o país ultrapassou os EUA em número de artigos nos 178 periódicos acompanhados pelo Nature Index.
O dinheiro por trás da virada
O investimento chinês em P&D cresceu cerca de 100 vezes em três décadas, de acordo com estatísticas oficiais citadas pela revista Nature. Na última década, o gasto subiu mais de 10% ao ano, em média. A meta do governo é elevar o total investido, somando setor público e privado, em ao menos 7% ao ano até 2030.
Pelos dados da OECD, em 2024 a China superou os EUA em despesa bruta com P&D pela paridade do poder de compra. Na cotação de mercado, porém, o gasto chinês ainda equivalia a cerca de metade do americano. A diferença entre os dois critérios explica por que a comparação costuma gerar disputa de números.
IA, chips e espaço: onde o avanço aparece
Na inteligência artificial, a DeepSeek, empresa de Hangzhou, apresentou em 2025 um modelo de linguagem competitivo. Em semicondutores, um fundo estatal criado em 2014 começou com cerca de 100 bilhões de yuans. A terceira rodada, lançada em 2024, prevê 344 bilhões de yuans (cerca de US$ 50 bilhões). Os EUA ampliaram em 2022 as restrições à exportação de chips avançados para o país.
No espaço, a China concluiu a estação Tiangong em 2022 e foi a primeira a pousar uma sonda no lado oculto da Lua, de onde trouxe amostras. O plano é levar astronautas à superfície lunar até 2030 e lançar em 2028 uma missão para trazer amostras de Marte, com retorno previsto para 2031.
A atração de cérebros também mudou de direção. Um estudo de 2023 na revista PNAS estimou que cerca de 5.600 cientistas deixaram os EUA rumo à China entre 2018 e 2021, contra cerca de 6.860 em todo o período de 2000 a 2017. No ano letivo 2024-2025, perto de 380 mil estudantes estrangeiros estavam matriculados em instituições chinesas, segundo o Ministério da Educação do país.
Os pontos fracos que os números mostram
A pesquisa básica recebeu menos de 7% dos recursos de P&D da China em 2024, contra 14,4% nos EUA. É nessa etapa que surgem as descobertas que alimentam tecnologias futuras, e a diferença indica onde a liderança americana ainda se sustenta. Para reduzir a distância, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China planeja financiar 12 mil projetos adicionais, voltados a pesquisadores no início de carreira.
Há também um problema de integridade. Uma investigação da Nature apontou que quase 60% dos artigos retratados entre 2014 e 2024 tinham ao menos um autor ligado a instituição chinesa. O dado pesa sobre o volume de publicações, que é a base da ultrapassagem no Nature Index.
O que isso significa para o Brasil
Para empresas e governos brasileiros, a consequência prática é de fornecimento e parceria. Modelos de IA competitivos vindos da China, uma indústria de chips financiada pelo Estado e uma política de atração de cientistas ampliam as opções de tecnologia, mas também a pressão entre Pequim e Washington, que já usa controle de exportação como instrumento. Quem planeja comprar infraestrutura de IA ou fechar acordos de pesquisa precisa considerar que as regras desse comércio mudaram ao menos uma vez desde 2022 e podem mudar de novo.



