quarta-feira, 30 de setembro de 2026 · Edição diária

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Brasil perde 142,9 mil supervisores administrativos em seis anos; CNC liga queda a IA e digitalização

Levantamento da CNC mostra que 81 das 500 principais ocupações do setor privado tinham menos trabalhadores em junho de 2026 que em fevereiro de 2020. Só os supervisores administrativos perderam 142,9 mil postos.

Trabalhadores em um escritório diante de computadores
Cargos de supervisão e gestão administrativa lideram a lista de ocupações que encolheram no setor privado brasileiro desde 2020. Foto: Pexels / cottonbro studio

Oitenta e uma das 500 principais ocupações do setor privado brasileiro tinham menos trabalhadores em junho de 2026 do que em fevereiro de 2020, segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgado nesta quarta-feira (30) pela Exame. O levantamento foi feito a pedido do Estadão e cobre cargos que somam mais de 90% do emprego formal privado.

A maior queda absoluta está na supervisão administrativa, que perdeu 142,9 mil postos no período. Na sequência aparecem gerentes administrativos (93,9 mil a menos), gerentes de lojas e supermercados (85,1 mil), supervisores de vendas comerciais (68,9 mil) e gerentes de vendas (46,8 mil).

Onde o corte foi mais fundo em proporção

Em termos percentuais, o varejo e o atendimento aparecem entre os mais atingidos. Os gerentes de lojas e supermercados encolheram 32% em seis anos, e os comerciantes do varejo, 23,3%. Supervisores e operadores de telemarketing perderam 41,1% das vagas.

Nem toda redução tem a mesma origem. Os motoristas de ônibus, por exemplo, perderam 21,6 mil postos, o que a reportagem atribui em parte ao trabalho remoto e a mudanças na mobilidade urbana, não à automação.

Para explicar o conjunto, o estudo aponta a digitalização de processos, a centralização de serviços, a terceirização e o uso de sistemas de gestão, com destaque para a inteligência artificial. A CNC, portanto, não isola o peso da IA dentro desse grupo de causas, e a pandemia também mexeu na demanda por trabalhadores.

O que dizem outras pesquisas sobre a IA

A Exame contrapõe o levantamento a dois estudos anteriores. Um deles, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 2025, analisou quase 30 mil tarefas e concluiu que o principal efeito da IA é a transformação do trabalho, e não a substituição de quem o executa.

O outro, uma análise da FGV, estimou que cerca de 30 milhões de brasileiros trabalham em funções expostas à IA generativa, sendo 5,2 milhões no nível mais alto de exposição, com dados do terceiro trimestre de 2025. Exposição indica que a tarefa pode ser feita pela tecnologia, não que o cargo desapareça.

Quem sente primeiro: a camada intermediária

O desenho da lista chama atenção pelo perfil. Cinco dos maiores recuos são cargos de supervisão e gerência, funções que coordenam equipes e controlam rotinas, justamente o tipo de trabalho que sistemas de gestão e ferramentas de IA passaram a acompanhar. Para empresas com estruturas administrativas grandes, o estudo indica que a camada intermediária foi a que mais encolheu desde 2020.

Para quem ocupa esses cargos, o dado pesa mais que a média do mercado. Em atividades como telemarketing e gerência de varejo, a queda superou um quinto das vagas, e a recolocação tende a exigir funções diferentes das que existiam em 2020.

MB

Repórter de Política e Economia do Real Nacional. Cobre Brasília, Congresso, tribunais, contas públicas e as eleições de 2026. Mais textos · Expediente · Política editorial

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