As ações da CoreWeave voltaram a cair na quinta-feira (15), com recuo de 6% no pré-mercado, um dia depois de perder mais de 15% na quarta-feira (14), segundo a CNN Brasil. A empresa de infraestrutura de IA acumula dívida de cerca de US$ 50 bilhões e opera com prejuízo. A queda ocorreu apesar de o CEO, Mike Intrator, ter dito aos funcionários que a carteira de contratos cobre com folga as obrigações com credores.
O sinal mais sensível veio do mercado de crédito. Os títulos emitidos em abril, com vencimento em 2031, passaram de 16% de rendimento, patamar que costuma indicar dificuldade de financiamento. O custo do seguro contra calote subiu para cerca de 1.000 pontos-base, o que embute probabilidade de inadimplência próxima de 63% em cinco anos. Há um ano, essa probabilidade era de cerca de 30%.
Uma queda que não ficou restrita a uma empresa
O movimento atingiu o setor inteiro. O Índice de Semicondutores da Filadélfia perdeu mais de US$ 1,6 trilhão em valor de mercado e acumula queda de 11,6% em seis pregões, enquanto o Nasdaq recuou mais de 3% no período. Nebius, Applied Digital e Iren, que atuam como a CoreWeave no aluguel de capacidade de processamento, caíram entre 3,2% e 5%.
Ações de tecnologia também recuaram na Ásia e na Europa, por temor de que juros altos e em alta pesem sobre empresas que dependem de dívida para crescer. Elon Musk manifestou preocupação nas redes sociais com o rendimento dos títulos da CoreWeave.
Axel Rudolph, analista técnico-chefe do IG Group, afirmou que o mercado percebe agora que demanda por IA e um modelo de negócios lucrativo são coisas muito diferentes.
O que sustenta a empresa e o que pesa contra ela
A CoreWeave abriu capital em março de 2025 e, segundo relatos da imprensa, tem Microsoft e OpenAI entre os principais clientes. Em agosto, elevou a previsão de gastos de capital do ano em US$ 4 bilhões, para até US$ 39 bilhões. Analistas projetam receita de quase US$ 13 bilhões em 2026 e prejuízo de US$ 2,13 bilhões.
Há um colchão: a Nvidia concordou em comprar toda a capacidade não vendida da CoreWeave até 13 de abril de 2032. O cofundador Brannin McBee disse ao Financial Times que a companhia busca grau de investimento, o que abriria acesso a capital sem limite prático. Hoje, com títulos acima de 16%, esse objetivo está distante.
A Gartner traz um alerta de longo prazo. Segundo o analista Will Sommer, a receita de IA de empresas e consumidores será insuficiente para sustentar o retorno dos investimentos planejados. A consultoria estima que cerca de 80% dos neoclouds podem fechar até 2030 e que mais de US$ 3,5 trilhões em infraestrutura de IA estão sujeitos a esse risco. As gigantes de tecnologia dos EUA devem gastar mais de US$ 700 bilhões neste ano.
Quem sente o efeito fora dos Estados Unidos
Para o Brasil, o efeito mais direto passa pelo custo e pela disponibilidade de capital para data centers. Projetos de infraestrutura de IA dependem de crédito caro e de contratos de longo prazo com grandes clientes, e um mercado que cobra mais de 16% de uma das empresas mais visíveis do setor tende a encarecer o financiamento de quem ainda vai captar. Investidores que compraram ações de IA por fundos e BDRs também ficam expostos à correção dos semicondutores.



