As ações da CoreWeave caíram cerca de 30% em outubro, e os juros de alguns de seus títulos chegaram a 15% na semana passada, segundo reportagem da CNN Brasil publicada nesta quarta-feira (21). A empresa de Nova Jersey virou o principal exemplo do quanto o boom da inteligência artificial depende de dinheiro emprestado.
A CoreWeave faz parte do grupo das chamadas neoclouds, companhias que alugam capacidade de computação para quem desenvolve IA. Ela não dá lucro. No balanço do segundo trimestre, as dívidas e obrigações de arrendamento somavam cerca de US$ 52 bilhões, contra aproximadamente US$ 30 bilhões no fim de 2025, uma alta de mais de 70% em menos de um ano.
Juros de 15% e uma estreia que derrapou
Um rendimento de 15% em título corporativo é o tipo de patamar que o mercado associa a dificuldade financeira e a maior risco de calote. Foi o que os investidores passaram a cobrar de parte da dívida da CoreWeave.
O desconforto não ficou restrito aos Estados Unidos. Na terça-feira (20), a Elice Group, empresa de data centers de IA, caiu 32% na estreia na bolsa da Coreia do Sul. A reportagem da CNN Brasil cita ainda a rejeição crescente da população a data centers e a dúvida entre investidores sobre se moratórias poderiam atrasar projetos.
Maçã podre ou canário na mina
Os analistas ouvidos pela reportagem tendem a separar a CoreWeave do resto do setor. Gil Luria, chefe de pesquisa de tecnologia da D.A. Davidson, rejeita a ideia de que a empresa seria um canário na mina de carvão, o sinal de que, se ela quebrar, tudo desmorona. Para ele, a CoreWeave é uma maçã podre entre outras, e o que preocupa é financiar investimento especulativo com dívida.
Luria afirma que o único risco sistêmico seria as pessoas pararem de usar IA, e diz acreditar que a demanda cresce rápido demais para isso acontecer. Ele resume o problema de forma geral: as quedas costumam vir quando as empresas assumem dívida demais.
Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays, escreveu em nota na segunda-feira (19) que a situação lembra a crise dos bancos regionais americanos de 2023. Na época, o argumento de contágio parecia plausível, mas estava errado, disse ele. Segundo o executivo, investidores não devem extrapolar os problemas da CoreWeave para todo o ciclo de investimentos em IA.
A leitura de Wall Street, de acordo com a reportagem, é que o risco para o valor das ações da CoreWeave é real, mas não ameaça a expansão do setor. Alphabet, Microsoft e Nvidia seguem como as empresas em que os investidores mantêm confiança.
Onde o juro alto pode chegar
O ponto que liga a CoreWeave às gigantes é o caixa. A CNN Brasil lembra que as big techs estão queimando dinheiro com investimentos em IA, e que um endividamento maior tornaria os juros um problema mais pesado para elas também.
Para o investidor brasileiro com exposição a ações americanas de tecnologia, seja por BDRs, seja por fundos internacionais, o sinal a acompanhar é o preço do crédito. Se o rendimento exigido de emissores mais frágeis como a CoreWeave continuar perto de 15%, projetos financiados com dívida ficam mais caros. Se os juros recuarem e a demanda por IA se mantiver, a avaliação dos analistas de que o problema é pontual ganha força.



