A DeepSeek captou cerca de 100 bilhões de yuans (R$ 75,3 bilhões, ou US$ 15 bilhões) na rodada de financiamento mais recente, segundo quatro pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela Folha de S.Paulo, em reportagem publicada nesta quinta-feira (22). Entre os investidores estão a fabricante de chips GigaDevice, a empresa de delivery Meituan e a montadora Geely.
A lista mistura semicondutores, consumo e indústria automotiva. É um sinal de que a startup chinesa de inteligência artificial atrai capital de empresas que dependem de IA em produtos e processos, e não apenas de fundos de venture capital.
O que a imprensa asiática já havia apurado
Os valores aparecem em linha com o que a The Standard, de Hong Kong, publicou em 13 de outubro, citando a mídia da China continental. O veículo afirmou que a segunda rodada da DeepSeek estava perto de ser concluída, com 100 bilhões de yuans e avaliação pré-money de cerca de 500 bilhões de yuans, sem alteração em relação ao início do processo. A divisão seria aproximadamente igual entre acionistas atuais e novos.
Segundo a The Standard, entram como novos investidores Stony Creek Capital, China Fortune-Tech Capital, CPE Asset Management, Legend Capital e a Geely. Entre os atuais estão CATL, Tencent, IDG Capital, Lux Capital e Silicon 100. A CATL, fabricante de baterias, teria investido cerca de 5 bilhões de yuans na primeira rodada e planejava aportar mais 10 bilhões nesta.
A Meituan aparece em outra frente. De acordo com a Bloomberg, citada pela The Standard, a DeepSeek vai liderar uma rodada seed de dezenas de milhões de dólares na Winverse AI, startup de robótica, e o braço de investimentos da Meituan, a Long-Z Investments, também participa. A DeepSeek já havia comprado 2% da Unitree Robotics para colaborar em modelos de IA incorporada.
Dois aportes em seis meses
A primeira rodada ocorreu em abril, com mais de 50 bilhões de yuans e avaliação acima de 350 bilhões, e teve fechamento inicial no fim de junho. A segunda foi lançada em julho. Somadas, as duas levariam o total captado a 150 bilhões de yuans, o que a The Standard descreveu como a maior captação no mercado primário da China neste ano.
Há uma diferença entre os relatos. A Folha trata o dinheiro como captado, enquanto a The Standard, duas semanas antes, falava em rodada quase concluída. Nenhuma das duas reportagens tem confirmação da empresa, e os valores vêm de fontes anônimas.
A The Standard também afirmou que a DeepSeek deve reestruturar a sociedade depois da rodada e se preparar para abrir capital no STAR Market, o segmento de tecnologia da bolsa de Xangai, com orientação da CITIC Securities. Os veículos consultados não detalham como o dinheiro será aplicado, exceto pelo investimento em robótica.
O que muda para quem compete com a China
Para empresas e governos que acompanham a disputa global por IA, o aporte mostra que os modelos chineses de custo menor seguem com financiamento em escala. Com R$ 75,3 bilhões em caixa, a DeepSeek passa a ter margem para comprar capacidade de computação e contratar pesquisadores, num mercado em que concorrentes americanos também levantam dezenas de bilhões de dólares por ano.
A entrada de uma montadora e de uma fabricante de chips no quadro de acionistas indica uma ligação mais direta entre o desenvolvimento de modelos e a indústria. Para o Brasil, que importa tecnologia de IA dos dois lados da disputa, a consequência prática é mais oferta de modelos de ponta a preços pressionados, e a necessidade de avaliar fornecedores chineses também pelo critério de governança e dados.



