A startup americana Colossal Biosciences apresentou na quarta-feira (14) uma plataforma de inteligência artificial para orientar o projeto de desextinção do dodô, ave extinta há mais de 300 anos, segundo a Exame. A ferramenta, chamada GenoMorph, indicou cerca de 2.300 possíveis alvos de edição genética relacionados ao formato do crânio e da face do animal.
O número, porém, é um ponto de partida e não um resultado. De acordo com a reportagem, esses alvos não são modificações validadas. Testes de laboratório ainda terão de mostrar quais deles realmente alteram as características em questão.
O que a GenoMorph faz
A plataforma combina três frentes de estudo: genômica comparativa, morfologia 3D e biologia do desenvolvimento. Ela foi construída com informações genéticas e medições tridimensionais de crânios de mais de 70 espécies de aves, entre elas galinhas, codornas, patos e pombos.
Com esse conjunto, o sistema procura regiões do DNA que possam estar ligadas a traços como o formato do bico e do crânio. A seleção serve para indicar à equipe onde vale investigar primeiro, em vez de testar edições às cegas.
O dodô (Raphus cucullatus) era uma ave da família dos pombos, sem capacidade de voo, nativa da ilha Maurício, no oceano Índico. Desapareceu no fim do século 17, depois da caça e da chegada de animais invasores à ilha.
O gargalo de ter um só genoma
A empresa dispõe de apenas um genoma de dodô, o que dificulta comparar indivíduos e separar variações normais de traços característicos da espécie. Por isso o trabalho depende de cruzar o material com o de aves vivas, sobretudo o parente mais próximo do dodô, o pombo-de-nicobar. A colônia desses pombos mantida pela Colossal chegou a 36 aves, informou a Exame.
A Colossal também anunciou nanopartículas lipídicas para levar as ferramentas de edição genética a embriões de aves em desenvolvimento. A técnica pode encurtar o tempo de avaliação das previsões da GenoMorph, já que não seria preciso esperar os animais chegarem à maturidade sexual para ver o efeito de cada alteração. A empresa relatou ainda avanços em células precursoras capazes de originar óvulos e espermatozoides.
Onde o projeto está de fato
A reportagem da Exame resume o estágio atual: por ora, a GenoMorph é uma ferramenta para orientar a pesquisa genética e não uma tecnologia que trouxe o dodô de volta. Entre a lista de 2.300 alvos e uma ave viva ainda há validação em laboratório, edição em embriões e desenvolvimento de células reprodutivas.
Para quem acompanha o setor, o anúncio mostra o uso da IA como filtro de pesquisa: reduzir um genoma inteiro a um conjunto de hipóteses testáveis. A etapa seguinte, a de comprovar quais dessas hipóteses funcionam, continua dependendo de experimentos e de tempo.



