O presidente do conselho de administração da Multilaser, Alexandre Ostrowiecki, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo publicada neste sábado (26) que é inaceitável deixar um trabalhador sem dois dias de descanso por semana num momento em que a inteligência artificial e a automação avançam sobre a produção industrial. Para ele, todo empregado deveria ter direito a dois dias de folga semanais.
A posição destoa da maioria dos empresários de porte semelhante ao dele, que resistem ao fim da escala 6x1 com o argumento de custo e perda de competitividade, segundo a Folha. Ostrowiecki disse ver o debate de forma inversa: para ele, o avanço tecnológico na produção é o que torna viável agora uma jornada mais curta.
As duas PECs que tramitam no Congresso
O tema chegou ao Congresso por duas frentes distintas. Duas propostas de emenda à Constituição em tramitação reduzem a jornada semanal de 44 para 36 horas, e um projeto de lei do governo prevê jornada de 40 horas em escala 5x2, com dois dias de descanso fixos por semana. Ostrowiecki defende esse modelo como piso mínimo para qualquer trabalhador, independentemente do setor em que atua.
O que Ostrowiecki diz sobre custo e demissões
O executivo reconheceu que a mudança tem custo e pode chegar, ainda que parcialmente, aos preços cobrados do consumidor. Ele disse não esperar uma onda de demissões como consequência da redução da jornada.
Segundo Ostrowiecki, a história do mercado de trabalho mostra que reduções de jornada anteriores provocaram o mesmo temor e acabaram absorvidas pela economia. Em suas palavras:
Para o presidente da Multilaser, o custo de operar uma empresa no Brasil vem de outras fontes mais pesadas que a jornada de trabalho: juros altos, tributos sobre o consumo e o tamanho da máquina pública. Segundo a Folha, ele defende que a resposta à perda de competitividade das empresas brasileiras é reduzir primeiro a burocracia e a carga tributária, mantendo o tempo de descanso do trabalhador fora dessa conta.
Quem paga a conta da mudança
A Multilaser é uma fabricante brasileira de eletrônicos com faturamento anual de R$ 5 bilhões e mais de 5 mil funcionários, segundo dados apresentados pela própria empresa à imprensa em julho. A companhia não detalhou publicamente qual fatia do quadro ainda trabalha em escala 6x1, nem qual seria o custo de migrar para o modelo 5x2 dentro da própria operação.
Se as PECs ou o projeto de lei avançarem no Congresso, o efeito prático recai sobre empresas que dependem de escalas de revezamento, caso do comércio e da indústria com turnos contínuos. Essas companhias precisariam contratar mais gente ou reorganizar horários para cobrir os mesmos períodos com menos dias de trabalho por funcionário, ponto em que a maioria do empresariado diverge de Ostrowiecki.
Por ora, nenhuma das duas PECs nem o projeto de lei têm data marcada para votação no Congresso. A declaração de Ostrowiecki representa um contraponto dentro do empresariado, num momento em que o avanço da inteligência artificial nas fábricas alimenta o debate sobre redução de jornada.
Fontes consultadas
- Folha de S.Paulo — É inaceitável que trabalhador fique sem 2 dias de descanso na era da IA, diz dono da Multilaser
- PÉ VERMELHO News — Dono da Multilaser defende fim da escala 6x1: Inadmissível não ter descanso na era da IA
- CNN Brasil — Vemos com preocupação cenário macroeconômico brasileiro, diz Multilaser



