A gestora Ventoá comprou 30% da Factum IA, startup que usa inteligência artificial para localizar patrimônio de devedores em processos de cobrança, informou a Exame nesta quinta-feira (22). A operação indica valor de empresa de cerca de R$ 7 milhões, segundo a reportagem.
A Factum IA afirma ter R$ 400 milhões em dívidas mapeadas e taxa de sucesso de 60% na localização de bens em casos parados há mais de três anos. Os números são da própria empresa e a Exame não informa que auditoria os confirmou.
O gargalo que a startup quer explorar
A Factum IA estima que o Judiciário tenha encerrado o último período com 75,5 milhões de processos em andamento e taxa de congestionamento de 62,6%. Mais de 30 milhões são execuções paradas porque ninguém encontrou bens para penhorar.
Pelas contas da empresa, essa fila prende R$ 324 bilhões no setor público e R$ 232 bilhões no privado, ou R$ 556 bilhões no total. É uma estimativa da startup, e não um dado oficial do Judiciário.
Menotti Franceschini, sócio da Ventoá, afirmou que o maior obstáculo na recuperação de ativos no Brasil não é a falta de decisões favoráveis ao credor. O problema, segundo ele, está em encontrar o que executar depois que a sentença sai.
Como a plataforma encontra o patrimônio
O sistema cruza informações sobre pessoas, empresas, participações societárias, relações familiares e processos judiciais para achar vínculos que ajudem a orientar a cobrança. Mudanças em quadros societários, ligações entre empresas e laços entre pessoas físicas e jurídicas entram nesse cruzamento. A Exame não detalha quais modelos de IA a startup usa.
Armando Zanin, fundador e especialista em investigação patrimonial, disse que as ferramentas convencionais entregam dados espalhados, e o profissional precisa conectá-los à mão. A Factum IA propõe automatizar essa etapa.
O modelo de negócio é de assinatura corporativa com monitoramento contínuo das carteiras dos clientes, em vez de consultas avulsas. Os alvos são bancos, instituições financeiras, FIDCs, securitizadoras e escritórios de advocacia. Até a entrada da Ventoá, a empresa havia sido construída com recursos limitados, em modelo próximo ao bootstrap.
A aposta da gestora e o que vem agora
A Ventoá tem cerca de dois anos de operação e 17 empresas na carteira, vindas de três caminhos: negócios fundados pelos sócios, empresas criadas com empreendedores especialistas e aportes em companhias existentes. As participações costumam ficar entre 25% e 30%, e a carteira soma mais de R$ 300 milhões, valor que se refere às fatias da gestora e não ao total das investidas.
A meta declarada é chegar a R$ 1 bilhão em cinco anos. Os sócios já tiveram saídas anteriores, entre elas a venda da Softway para a Thomson Reuters e uma operação secundária na Movile, em 2022.
Para bancos e fundos de crédito, o efeito prático está na carteira de execuções paradas. Se a taxa de 60% se confirmar fora da base da própria startup, parte dos processos hoje tratados como perda poderia voltar a render. A validação virá com os primeiros contratos de assinatura com instituições financeiras, que a empresa pretende fechar com o aporte.



