segunda-feira, 19 de outubro de 2026 · Edição diária

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FMI e Banco Mundial fecham reuniões sem plano; dívida de emergentes já consome 14% da receita

Reunião em Bangcoc não respondeu a guerras, juros altos nem à possível bolha da IA. Segundo a Reuters, o serviço da dívida dos emergentes mais que dobrou em dez anos e chega a 14% da receita pública.

Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, em painel das reuniões com o Banco Mundial
Kristalina Georgieva, do FMI, discursa ao lado de Tharman Shanmugaratnam e Ajay Banga, do Banco Mundial. Foto: Xuthoria / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

As reuniões do FMI e do Banco Mundial da semana passada não trouxeram respostas novas aos países em desenvolvimento, segundo a Reuters, em texto publicado nesta segunda-feira (19). Os governos foram a Bangcoc em busca de orientação sobre a guerra no Oriente Médio, a guerra na Ucrânia, o aumento do custo da dívida e uma possível bolha da inteligência artificial. Saíram com pouco além do que já ouviam.

Os países de baixa renda receberam as recomendações de sempre: reduzir déficits fiscais e acelerar reformas para atrair investimento privado. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, que é a primeira a chefiar o fundo vinda de um país em desenvolvimento (a Bulgária), reconheceu o limite do que havia a oferecer.

A dívida que já pesa 14% da receita

Georgieva afirmou que as economias avançadas são as maiores responsáveis pelos desequilíbrios orçamentários no mundo. Disse também que a dívida dos países em desenvolvimento caiu nos últimos anos, mas que a alta dos rendimentos dos títulos em outros mercados encareceu o endividamento deles.

O resultado aparece no serviço da dívida. Em média, os pagamentos desses países mais que dobraram em relação a uma década atrás e chegam a 14% da receita dos governos, de acordo com a Reuters.

Em painel no sábado, a dirigente disse que o mundo vive uma situação com muito mais perguntas do que respostas. Alertou os participantes a não se deixarem enganar por quem finge ter as respostas.

Críticas ao preparo das instituições

Josh Lipsky, vice-presidente de economia internacional do Atlantic Council, avaliou que as reuniões perderam a chance de oferecer orientação ou formas de ajuda. Segundo ele, é difícil falar do mundo em desenvolvimento quando as economias avançadas não estão organizadas.

Mauricio Cárdenas, ex-ministro da Fazenda da Colômbia e pesquisador da Universidade de Columbia, afirmou que muitos formuladores de políticas saíram com a sensação de que algo ruim poderia acontecer, sem um roteiro concreto. Para ele, FMI e Banco Mundial não estão particularmente bem preparados para essa nova fase. Kate Pickett, da Universidade de York, defendeu crescimento mais inclusivo em vez de reformas rigorosas impostas de fora.

As tensões geopolíticas também atrapalharam. Quase metade dos delegados de um comitê do FMI deixou a sala durante a fala do ministro das Finanças da Rússia. O chefe do comitê, o saudita Mohammed Al-Jadaan, teve a chegada atrasada por ataques houthis ao aeroporto de Riad e precisou ir por terra até o Catar para pegar um voo.

Crescimento menor e uma IA sem iniciativa concreta

Ayhan Kose, economista-chefe adjunto do Banco Mundial, disse que a economia global resistiu melhor do que o esperado ao maior choque energético, provocado pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Uma recessão global foi evitada, mas as perspectivas pioraram em economias avançadas e emergentes. O crescimento dos países em desenvolvimento caiu de 4,4% para perto de 3,6%.

Kose afirmou que a resiliência de agora não garante a de amanhã e que um novo choque surge a cada três ou seis meses. Sobre a IA, o Banco Mundial diz focar em ajudar os países a se prepararem, em parte mobilizando capital privado, hoje três vezes acima do nível de 2022. A Reuters registra que nenhuma iniciativa específica foi anunciada.

O que sobra para quem precisa captar

Na prática, governos emergentes seguem com a receita de ajuste fiscal e reformas, enquanto o custo de rolar a dívida continua alto. O Banco Mundial enfrenta quedas acentuadas na ajuda oficial ao desenvolvimento e dificuldade persistente para atrair investimento estrangeiro, o que reduz as alternativas de financiamento fora do mercado.

MB

Repórter de Política e Economia do Real Nacional. Cobre Brasília, Congresso, tribunais, contas públicas e as eleições de 2026. Mais textos · Expediente · Política editorial

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