sexta-feira, 16 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Chefe do FMI vê risco da IA acima dos ganhos sem regras, e os EUA querem chamá-la de superinteligência

Em Bangkok, Kristalina Georgieva afirmou que, sem salvaguardas, os riscos da IA podem pesar mais que as oportunidades. Na mesma semana, Washington negocia com os sócios do FMI trocar o termo por superinteligência no comunicado conjunto.

Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI
Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, falou sobre IA em painel na reunião anual do Fundo e do Banco Mundial, em Bangkok. Foto: Europäische Kommission - Audiovisueller Dienst, Xavier Lejeu / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou nesta sexta-feira (16), em Bangkok, que os riscos da inteligência artificial podem superar as oportunidades se não houver medidas de segurança e uma base ética para a tecnologia, segundo a CNN Brasil. Ela falou em painel das reuniões anuais do Fundo e do Banco Mundial, ao lado de Jack Clark, cofundador da Anthropic.

Georgieva disse não ter certeza de que a sociedade já dispõe desse fundamento ético. Na avaliação dela, a IA já fortalece a economia global, mas pode causar dano se os ganhos de produtividade chegarem mais devagar do que o esperado. Na terça-feira (13), o próprio FMI havia alertado para riscos ao crescimento e à estabilidade financeira vindos de um eventual fim do boom de investimentos em IA, do alto endividamento e de uma guerra prolongada no Oriente Médio.

Fórmula 1 sem barreiras

Para descrever a situação, Georgieva comparou a IA a carros de Fórmula 1 em alta velocidade sem barreiras de proteção para o público. Clark retomou a imagem e brincou que seria uma corrida à noite, talvez com carros sem freios. O executivo da Anthropic afirmou que padrões sensatos são possíveis e citou as primeiras políticas da União Europeia e os compromissos voluntários nos EUA. Segundo ele, a empresa testa seus sistemas com regularidade e publica os resultados, mas isso não deveria ser totalmente voluntário.

A diretora do FMI defendeu uma combinação de autorregulação do setor com a participação dos grandes governos. Disse que devem ficar à mesa os países com grandes indústrias de IA, como EUA, China e Índia, e os que integram a cadeia de suprimentos. Para o benefício ser global, afirmou, são necessários infraestrutura digital, acesso à eletricidade e regulação adequada.

A disputa pelo nome

O debate técnico ganhou uma camada política. Erin Browne, vice-secretária do Tesouro dos EUA, disse à Reuters na quinta-feira (15) que o FMI dá peso demais aos riscos globais e deveria considerar mais os choques positivos, como a IA. Ela afirmou que o governo americano agora chama a tecnologia de superinteligência e que Washington negocia com os demais acionistas do Fundo a adoção do termo em um comunicado conjunto.

O ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, respondeu que continuará dizendo inteligência artificial. O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, afirmou que a IA pode ampliar desequilíbrios globais, citando os investimentos necessários em hardware e software. Já o governador do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, disse estar mais otimista do que há um mês quanto a um acordo entre países sobre padrões de teste.

Duas crises possíveis

O economista Dani Rodrik, de Harvard, disse à Reuters que não está claro se os ganhos de produtividade vão se materializar. Se vierem, podem trazer perdas relevantes de emprego e ruptura em setores. Se não vierem, o investimento pesado em data centers pode terminar em uma correção financeira cara. Segundo Rodrik, ainda não se sabe se o mundo enfrentará a crise do emprego ou a crise financeira.

Para empresas e investidores brasileiros, a discussão afeta o preço do capital. Um tom mais duro do FMI sobre a bolha de IA e uma eventual disputa por regras entre EUA e Europa tendem a pesar nas decisões de aporte em data centers e em contratos de nuvem. A reportagem da CNN Brasil não traz números sobre dívida, crescimento ou investimento.

MB

Repórter de Política e Economia do Real Nacional. Cobre Brasília, Congresso, tribunais, contas públicas e as eleições de 2026. Mais textos · Expediente · Política editorial

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