A Gallup divulgou em outubro um levantamento que mostra que o uso frequente de inteligência artificial no trabalho está concentrado entre quem já ocupa os melhores empregos nos Estados Unidos. A pesquisa, batizada de American Job Quality Study e feita em parceria com a organização Jobs for the Future, o The Families and Workers Fund e o W.E. Upjohn Institute for Employment Research, ouviu 17.874 adultos americanos entre 26 de janeiro e 24 de março de 2026, dos quais 15.482 eram trabalhadores empregados e 7.845 usavam IA na função.
Entre os entrevistados, 40% dos graduados universitários disseram usar IA no trabalho ao menos uma vez por semana, contra 17% de quem não tem diploma de ensino superior. Entre gestores, a proporção de uso regular chega a 37%, acima dos 25% registrados entre quem não ocupa cargo de chefia. No conjunto da força de trabalho americana, 28% usam a tecnologia com frequência e 54% nunca a utilizaram no trabalho, segundo a Gallup.
O ganho de quem já usa a ferramenta
Entre os 7.845 trabalhadores que usam IA, 63% disseram que a ferramenta os ajuda a concluir tarefas mais rápido e 56% relataram soluções mais criativas para problemas do trabalho. Outros 47% afirmaram ganhar tempo para tarefas consideradas mais interessantes e 46% disseram produzir trabalho de qualidade superior. Um grupo menor, de 31%, relatou ter recebido mais responsabilidades depois de passar a usar a ferramenta, de acordo com o levantamento.
O benefício varia conforme a frequência de uso. Entre quem usa IA todos os dias ou toda semana, 79% relataram tarefas mais rápidas, contra 38% dos usuários esporádicos. A diferença se repete na criatividade (67% contra 39%), na qualidade do trabalho entregue (59% contra 26%) e no tempo dedicado a tarefas de maior interesse (61% contra 27%), aponta a pesquisa.
Quem sai na frente dentro das empresas
A Gallup também cruzou o uso de IA com a qualidade do próprio emprego. Entre quem usa a tecnologia semanalmente, 52% disseram ocupar um posto classificado como de alta qualidade pelos critérios do estudo. Entre os usuários esporádicos, o percentual cai para 46%, e entre quem nunca usou IA no trabalho, para 32%.
O resultado indica que a IA reforça, em vez de reduzir, uma distância que já existia entre trabalhadores com mais escolaridade e cargos de gestão e o restante da força de trabalho. Quem ocupa um posto mais qualificado tem mais acesso à ferramenta, mais liberdade para testar seu uso no dia a dia e, por consequência, relata um volume maior de ganhos à Gallup.
A pesquisa não traz dados equivalentes para o Brasil, mas o recorte por escolaridade e cargo de chefia repete um padrão observado em outros levantamentos sobre adoção de IA no mundo do trabalho: quem parte de uma posição melhor tende a ampliar a vantagem com a nova ferramenta, enquanto trabalhadores sem diploma ou sem cargo de gestão seguem com acesso mais raro à tecnologia.
Para empresas americanas que adotam IA sem um plano de capacitação voltado a toda a equipe, o risco apontado pela Gallup é concentrar o ganho de produtividade em quem já tinha o melhor emprego, deixando de fora justamente a parcela de trabalhadores que mais precisaria de um impulso na carreira.



