Quatro expressões nascidas em TikTok, X, Reddit e fóruns de programação passaram a descrever o incômodo dos usuários com a inteligência artificial, segundo reportagem da Exame publicada neste domingo (18). São elas clanker, AI slop, vibe coder e brainrot. Três delas já viraram palavra do ano em grandes dicionários de inglês entre 2024 e 2025.
Brainrot foi a escolhida da Oxford University Press em 2024, depois de uma votação pública com mais de 37 mil participantes. Vibe coding ficou com a Collins, e AI slop com o Macquarie Dictionary, referência do inglês australiano, em 2025. A Exame observa que não existe equivalente consolidado em português, e por isso as redes brasileiras usam os termos originais.
De droide de Star Wars a xingamento de chatbot
Clanker é um insulto a robôs, assistentes de voz e agentes de IA. O Merriam-Webster o registra como ofensa a máquinas, e o Dictionary.com amplia o sentido para qualquer tecnologia velha ou que funciona mal. A palavra imita o som de metal batendo e aparece em ficção científica desde 1958, mas ganhou fama em Star Wars, quando soldados clone chamam os droides de batalha de clankers em Republic Commando (2005) e The Clone Wars (2008).
Em 2025 o termo viralizou no TikTok em vídeos que zombam de robôs de entrega, carros autônomos e atendentes virtuais. O uso típico é o desabafo contra o chatbot do banco. A Exame registra que críticos de linguagem veem em alguns memes a mesma gramática de insultos dirigidos a grupos humanos, o que, na avaliação deles, banaliza o discurso discriminatório.
AI slop, por sua vez, designa conteúdo de baixa qualidade produzido por IA em grande volume. Slop, em inglês, é a lavagem dada aos porcos. O Macquarie o define como material de IA generativa com erros frequentes, exibido sem que o usuário tenha pedido. A crítica recai sobre a produção sem valor, não sobre o uso da tecnologia: listas genéricas, textos sem apuração, imagens com anatomia estranha e vídeos sintéticos de animais ou celebridades feitos para atrair cliques. Conteúdo com apoio de IA que passa por revisão e checagem de fatos não entra na categoria, de acordo com a reportagem.
Código aceito sem leitura: os números de risco
Vibe coding é o nome dado a construir software descrevendo o desejo em linguagem natural para uma IA, em vez de escrever linha por linha. A Exame atribui o termo a Andrej Karpathy, que a reportagem descreve como cofundador da OpenAI, e diz que ele o cunhou em fevereiro de 2025 para o hábito de aceitar sugestões do modelo sem ler o código gerado. O vibe coder usa ferramentas como Claude, ChatGPT, Cursor, Replit ou Lovable e corrige o resultado com novos comandos. O rótulo pode soar como elogio ou como crítica.
A reportagem cita dados de segurança. Um relatório da Veracode de julho de 2025 encontrou falhas do OWASP Top 10 em 45% das amostras de código gerado por IA. Uma análise da CodeRabbit apontou que pull requests feitos com IA tinham 1,7 vez mais problemas do que os escritos só por humanos. Os defeitos mais comuns são chaves de API e senhas expostas, logins mal configurados, permissões excessivas e bancos de dados abertos.
Há ainda o slopsquatting: a IA inventa nomes de bibliotecas que não existem, e criminosos registram pacotes maliciosos com esses nomes. Para aplicativos que tratam pagamentos ou dados pessoais, a Exame recomenda não colocar credenciais em prompts, revisar controles de acesso, testar e rodar análise de segurança antes de publicar e buscar revisão profissional.
Brainrot e o feed que não ensina nada
Brainrot, ou brain rot, significa apodrecimento mental e descreve o cansaço causado pelo consumo excessivo de conteúdo trivial. Pode nomear o material em si (vídeos absurdos, memes repetitivos) ou o efeito de rolar a tela sem reter nada. É popular entre as gerações Z e Alpha. A Exame liga o termo à IA pelo volume de slop nos feeds, mas lembra que o desenho das plataformas e os algoritmos de recomendação também pesam. Não é diagnóstico clínico.
Como se proteger do lixo de IA e do código sem revisão
Para o leitor comum, a reportagem sugere definir alertas de tempo de uso nos aplicativos de vídeo curto, deixar de seguir contas de conteúdo automatizado e marcar vídeos repetitivos como "não tenho interesse". Também recomenda priorizar veículos e especialistas com credenciais rastreáveis. Sinais de slop incluem texto genérico, fontes ausentes ou quebradas, falhas em imagens (dedos a mais, placas ilegíveis, sombras incoerentes) e títulos sensacionalistas.
Para quem desenvolve com IA, a regra é tratar o código gerado como rascunho: com 45% das amostras apresentando falhas na medição da Veracode, publicar sem testes e sem revisão de acesso transfere o risco para os usuários finais.



