Meredith Whittaker, presidente da Signal Foundation, disse em entrevista à BBC, republicada pelo g1 em 19 de outubro, que as previsões de um apocalipse causado pela inteligência artificial se apoiam em um temor sem fundamento científico. Para ela, o perigo está no uso descuidado da tecnologia, e já produz consequências hoje.
O exemplo central é uma reportagem da CNN. Segundo Whittaker, um chatbot usado por serviços de inteligência dos Estados Unidos inventou informações sobre um navio chinês que supostamente transportaria material nuclear. De acordo com a reportagem citada por ela, o episódio levou os americanos a preparar uma resposta militar. "Quase entramos em guerra com a China", afirmou.
Um erro de máquina contra a ideia de superinteligência
Whittaker usa o caso para questionar a tese de que sistemas de IA estariam perto de superar os humanos. Se um modelo fabrica dados sobre uma carga nuclear e a informação chega a uma decisão de defesa, argumenta, o problema é de confiança excessiva no sistema, e não de uma máquina com vontade própria.
A executiva também liga o assunto ao Project Maven. Em 2017, quando trabalhava no Google, ela soube de um contrato secreto com o Departamento de Defesa dos EUA para criar IA capaz de identificar alvos de ataques com drones. Em 2018, ajudou a organizar um protesto que reuniu cerca de 20 mil funcionários. O Google abandonou o contrato, e a Palantir assumiu o projeto.
Ela relaciona essa tecnologia a um ataque de míssil dos EUA a uma escola em Minab, no Irã, neste ano. Segundo Whittaker, o ataque se baseou em inteligência desatualizada que classificava o prédio como alvo militar. O Exército americano não divulgou o resultado de sua investigação. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que os militares jamais atacariam alvos civis. A Palantir afirmou não haver evidências de que seu software tenha sido responsável, e Louis Mosley, diretor da empresa para Reino Unido e Europa, disse que a decisão final é sempre de um humano.
Privacidade sob pressão no Reino Unido
Whittaker comanda o Signal, aplicativo de mensagens criptografadas que, segundo a BBC, tem entre 40 milhões e 70 milhões de usuários, contra cerca de 3 bilhões do WhatsApp. Os servidores do app não têm acesso à identidade de quem envia as mensagens. O serviço é bloqueado total ou parcialmente na Rússia, na China e no Irã.
A executiva diz que o Signal deixaria um mercado em vez de enfraquecer a criptografia. A declaração ocorre porque autoridades britânicas querem mais acesso a conversas protegidas. Keir Starmer, então primeiro-ministro, afirmou na London Tech Week de 2026 que as empresas de tecnologia precisam bloquear imagens de nudez em dispositivos de crianças, e o Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia do país prepara mudanças na lei. Whittaker classifica a abordagem do governo como um sistema de controle.
A tese tem oposição. Rani Govender, da organização britânica NSPCC, disse que a entidade ouve de crianças aliciadas em plataformas com criptografia de ponta a ponta e forçadas a produzir material de abuso, e que as empresas não podem ignorar esse risco. Hera Hussain, fundadora da Chayn, chama o Signal de ferramenta de sobrevivência em tempos de vigilância estatal, embora reconheça que criminosos também o usam.
O que a discussão muda para quem usa IA e mensageiros
Para empresas e usuários brasileiros, o argumento de Whittaker desloca a cobrança: em vez de debater uma IA hipotética fora de controle, o foco passa a ser quem valida a resposta de um chatbot antes de ela virar decisão. No caso do navio chinês, a falha estava em uma etapa que um humano poderia ter checado.
A segunda frente é a privacidade. Qualquer lei que exija acesso a mensagens criptografadas, como a em preparo no Reino Unido, tende a abrir precedente para outros países, e o Signal já sinalizou que prefere sair de um mercado a ceder.



