A OpenEvidence, plataforma de inteligência artificial que responde a perguntas de profissionais de saúde com base na literatura médica, está avaliada em US$ 15 bilhões e afirma que 65% dos médicos americanos a utilizam. O dado consta no site da empresa e foi retomado nesta quarta-feira (21) pelo Financial Times, segundo a Exame. Trata-se de um número autodeclarado, sem medição independente.
A empresa captou US$ 250 milhões em setembro, o que sustenta a avaliação atual. Também disse ao jornal britânico que o serviço recebeu mais de 42 milhões de consultas no mês passado. A Exame ressalva que isso mede perguntas feitas ao sistema, e não atendimentos distintos a pacientes.
Do consultório ao prontuário eletrônico
O avanço agora passa pelos hospitais. Em março, o Mount Sinai anunciou parceria para colocar a OpenEvidence dentro do prontuário eletrônico, ao alcance de médicos, enfermeiros e farmacêuticos. A ideia é permitir a busca por evidências sem sair do fluxo de trabalho clínico.
Segundo a empresa, a versão institucional é gratuita, inclui a integração com o prontuário e não usa dados clínicos desse modo para treinar modelos. A lista de acordos de conteúdo inclui o New England Journal of Medicine, o JAMA e as diretrizes da National Comprehensive Cancer Network.
A repórter da Exame testou a ferramenta durante a conferência GTC da Nvidia, em San Jose, em março. A interface lembra a do ChatGPT, com respostas em linguagem natural, bibliografia especializada e imagens de estruturas do corpo. O usuário consegue conferir as fontes, mas ainda precisa avaliar com critério o texto e as imagens.
O que as pesquisas já mostram
Em junho, um estudo na Nature Medicine comparou a OpenEvidence e o UpToDate Expert AI com três modelos de uso geral. Foram 500 perguntas de conhecimento médico, 500 itens sobre alinhamento a critérios clínicos e 100 dúvidas reais de médicos, revisadas por 12 profissionais. Os modelos gerais tiveram desempenho melhor nos três testes, de acordo com a Exame. O resultado vale para as versões e tarefas avaliadas, não para desfechos de pacientes.
Em setembro, uma correspondência na mesma revista questionou o alcance das conclusões, dadas as limitações do trabalho. Uma revisão publicada em agosto no npj Digital Medicine reuniu 11 estudos e encontrou resultados promissores, mas com amostras pequenas e métodos diferentes. Os autores pedem estudos prospectivos em ambientes reais e avaliações padronizadas para uma plataforma que muda o tempo todo.
Onde o Brasil entra
A versão institucional da OpenEvidence atende organizações que apoiam profissionais americanos verificados, segundo a página comercial da empresa, e portanto não está disponível no Brasil por enquanto. A Exame cita como iniciativa parecida o Projeto Capricórnio, no Paraná, voltado à pesquisa de evidências em oncologia.
Para hospitais e planos de saúde brasileiros que avaliam ferramentas semelhantes, o caso americano traz um aviso prático. Uso massivo e boa nota em teste não bastam como prova de benefício clínico. Cada resposta ainda precisa ser conferida contra o caso do paciente, e a decisão de adotar uma plataforma depende de estudos que acompanhem resultados reais, hoje escassos.



