quarta-feira, 7 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

83,4% dos professores de uma rede já usam IA, mas o que pesa é a opinião dos colegas

Levantamento da Imagine Brasil com 308 docentes de uma rede de educação profissional mostra 83,4% de adoção de IA. O que decide o uso é a crença de que a ferramenta melhora o trabalho, não a facilidade de operá-la.

Professor usando notebook em sala de aula
Pesquisa ouviu 308 docentes de uma grande rede nacional de educação profissional sobre o uso de inteligência artificial. Foto: Pexels / Yan Krukau

Uma pesquisa da Imagine Brasil, iniciativa da Fundação Dom Cabral, mostra que 83,4% dos professores de uma grande rede nacional de educação profissional já pesquisam, aprendem e usam inteligência artificial na rotina de trabalho. O levantamento ouviu 308 docentes e foi publicado pela Exame nesta quarta-feira (7). A rede não é identificada no material.

Os outros dois grupos são pequenos. Segundo o estudo, 7,5% aprenderam sobre IA sem usá-la de forma rotineira, e 8,8% avaliam que não aprenderam o bastante para aplicá-la. Os dados foram coletados em setembro de 2025, ou seja, o retrato tem cerca de um ano.

Ferramentas e usos mais comuns

O ChatGPT foi citado por 54,9% dos entrevistados, seguido pelo Gemini, com 52,6%, e pelo Copilot, com 35,7%. Como a soma passa de 100%, muitos docentes usam mais de uma ferramenta.

Os usos declarados concentram-se no preparo da aula. Estudo e pesquisa lideram, com 36,7%, depois o desenho de atividades de aprendizagem (26,6%) e a criação de materiais instrucionais (18,2%). A avaliação formal aparece com frequência bem menor, o que sugere que o professor aceita a IA como apoio, mas hesita em delegar a ela a nota do aluno.

O que decide a adoção

Os pesquisadores usaram a Teoria Unificada de Aceitação e Uso de Tecnologia (UTAUT) para medir o peso de cada fator. O mais forte foi a expectativa de desempenho, isto é, a crença de que a ferramenta melhora o trabalho. Em segundo vem a influência dos colegas: 54,9% dizem compartilhar recursos e experiências de IA com os pares.

A facilidade de uso teve o menor peso. Acesso, licenças e suporte técnico não influenciam a decisão diretamente, e só atuam sobre a percepção de utilidade e de facilidade. Na conclusão, os autores escrevem que o gargalo da transição provavelmente não é tecnológico, e sim de sentido e legitimidade profissional.

A Exame cita ainda o Work Trend Index 2026, da Microsoft, via Olhar Digital: fatores organizacionais, como cultura e apoio da liderança, têm impacto mais de duas vezes maior na adoção do que fatores individuais. No Brasil, 72% dos profissionais dizem fazer tarefas que não faziam há um ano por causa da tecnologia, contra 58% da média global.

O que a rede precisa fazer com o dado

Para quem desenha a formação de docentes, a pesquisa aponta dois caminhos práticos: cursos com casos da própria área de atuação e espaços de troca entre pares. Se a opinião dos colegas pesa mais que a facilidade da ferramenta, treinamento genérico sobre como operar o ChatGPT tende a render menos que um colega mostrando como usou a IA numa aula parecida.

Há limites. O estudo cobre uma única rede, em um único momento, e mede o uso declarado, não o comportamento observado. A adoção avança por experimentação individual, antes de qualquer política formal, e temas como transparência, privacidade e integridade acadêmica vão exigir referências institucionais de uso responsável.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.