O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu nesta terça-feira (20) uma investigação sobre o vazamento de dados do Smart Sampa, sistema de monitoramento com inteligência artificial da Prefeitura de São Paulo, segundo o Canaltech. A reportagem do UOL, assinada por Artur Rodrigues, mostrou que informações capazes de dar acesso indevido a mais de 58 mil câmeras ficaram públicas na internet por cerca de 11 meses.
Os dados estavam num repositório público e incluíam 181 logins e senhas de usuários, além de informações sobre mais de 6 mil agentes de segurança. Com ajuda de IA, a equipe do UOL montou uma interface para o sistema e passou a ver imagens de ruas, creches, escolas, hospitais e unidades de tratamento de dependência. Em um teste em Campos Elíseos, os repórteres registraram os próprios movimentos em oito câmeras interligadas.
O que as credenciais abriam
As credenciais também davam entrada na plataforma da Sentinelx, onde era possível buscar nomes, CPFs e placas de veículos e consultar boletins de ocorrência. O acesso testado não exigia autenticação em dois fatores. Um especialista ouvido pela reportagem disse que algumas interfaces poderiam permitir a inserção de registros falsos de reconhecimento facial e de placas. Ninguém confirmou que isso tenha acontecido, e a Sentinelx não comentou o caso.
A prefeitura nega falha de segurança. Atribui o episódio a um servidor, que foi afastado das funções e é investigado, e o classifica como ato criminoso. Afirma que a plataforma não foi usada de forma indevida e contesta que o repositório contivesse senhas. Depois da reportagem, passou a exigir senhas individuais, autenticação em dois fatores e código por SMS para criar novas senhas. A Corregedoria da GCM já examinava o caso antes da abertura do inquérito pelo MP-SP.
Um contrato de R$ 588 milhões sem auditoria independente
O contrato foi assinado em 2023 com o Consórcio Smart City SP e vale R$ 588 milhões ao longo de cinco anos. A Sentinelx foi criada depois da assinatura e entrou no consórcio no lugar da Camerite. O texto exige medidas de segurança e a comunicação de incidentes anormais em até 24 horas, com multa em caso de descumprimento. Até agora, nenhuma sanção foi confirmada.
A prefeitura diz que não tem acesso ao código-fonte, aos modelos de IA nem aos dados de treinamento, e que não faz auditorias independentes sobre eles. Afirma que o Tribunal de Contas do Município fiscaliza o sistema e que o contrato prevê testes periódicos de segurança. Também defende os resultados do programa: 3.628 foragidos capturados e 284 desaparecidos localizados.
Os erros que já estavam registrados
O vazamento se soma a falhas de operação conhecidas. Entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram levadas a delegacias e depois liberadas, o equivalente a 7,9% de cerca de 3,4 mil detenções. Em 181 casos, os mandados de prisão já não eram válidos. Em 75, houve erro de reconhecimento facial, e em 12, problemas de cadastro.
Em janeiro de 2026, um entregador foi parado duas vezes depois que o sistema apontou 97% de semelhança com um condenado por tráfico. A cidade e o estado foram condenados a pagar R$ 10 mil a ele. Em fevereiro de 2025, a prefeitura havia elevado de 90% para 92% o grau mínimo de semelhança facial para gerar alertas. Um estudo de fevereiro de 2026 do LAPIN, do Instituto Peregum e da Rede Liberdade já questionava a transparência do programa.
Quem responde pela segurança dos dados
A investigação do MP-SP vai medir se o contrato foi cumprido, em especial a obrigação de reportar incidentes em 24 horas, e se houve acesso indevido a CPFs, placas e boletins de ocorrência. Para o cidadão, a questão é concreta: um sistema que concentra imagens e dados pessoais dependia, segundo a reportagem, de credenciais que estiveram abertas por quase um ano. Enquanto a prefeitura não auditar de forma independente o código e os modelos de IA, a verificação do que o sistema faz continua nas mãos do consórcio contratado.



