O Stack Overflow, plataforma de perguntas e respostas usada por programadores, divulgou uma pesquisa com 30 mil desenvolvedores de 169 países em que o uso de inteligência artificial convive com a rejeição a ela. Os resultados, compartilhados em primeira mão com a CNN antes da publicação, mostram que 65% dos entrevistados usam assistentes ou agentes de código. Seis em cada dez profissionais de tecnologia, ao mesmo tempo, dizem evitar a IA.
O questionário tinha 103 perguntas. A CNN Brasil, que reproduziu o levantamento, contrasta os números com um estudo anterior do Google, segundo o qual 90% dos profissionais de tecnologia no mundo usavam IA no trabalho em 2025, alta de 14 pontos percentuais sobre 2024.
Onde a IA ajuda e onde não convence
A utilidade percebida varia muito conforme a tarefa. De acordo com a pesquisa, 74,4% dos desenvolvedores consideram a IA útil para implementar código e 72% a veem como útil para depurar. Para comunicação e design, o índice cai para 34,4%.
A confiança é o ponto mais frágil. Só 6,6% dos entrevistados confiam na IA para decisões importantes. Cerca de 78% afirmam que a indicação da fonte é essencial na hora de verificar um código gerado por ferramenta automatizada.
A engenheira de software Laura Housh, que começou a testar IA em 2024, contou à CNN que tentou usá-la para programar, mas não conseguiu se adaptar. Segundo ela, a ferramenta consegue orientar, mas não tem o contexto necessário para ser realmente útil. Audrey Eschright, engenheira com duas décadas de carreira, afirmou que escrever código é a forma como se resolvem problemas, e sugeriu que delegar essa etapa à IA afasta o profissional do centro do trabalho criativo.
Insatisfação sobe junto com a automação
O mesmo levantamento registra piora no humor da categoria. Quase um terço dos entrevistados diz estar infeliz no cargo atual, ante 28,4% no ano anterior. Cerca de 45% se descrevem como acomodados, e apenas 22,3% se dizem felizes. Entre os motivos listados estão esgotamento, fadiga com tecnologia, incerteza econômica e falta de clareza sobre a carreira.
Prashanth Chandrasekar, CEO do Stack Overflow, disse à CNN que o ritmo da evolução tecnológica ampliou preocupações que já existiam. De acordo com ele, os profissionais precisam se reinventar por completo e se incomodam ao saber o quanto do que fazem será automatizado. Chandrasekar acrescentou que quem está começando enfrenta uma cobrança maior, já que o nível de exigência subiu com a IA e o iniciante passa a ser medido como um profissional com três anos de experiência.
O que isso pesa para quem contrata
Para empresas que compram licenças de assistentes de código e medem produtividade pelo número de usuários ativos, os dados indicam que adoção e satisfação não andam juntas. Um desenvolvedor pode usar a ferramenta por exigência do empregador e, ainda assim, não confiar no que ela entrega. A diferença entre os 65% que usam e os 6,6% que confiam em decisões importantes sugere que o código gerado continua passando por revisão humana.
Para o profissional júnior, o recado do levantamento é de custo: a IA eleva a régua de entrada sem garantir mais vagas. A pesquisa não mede salários nem demissões, e a CNN não informa a distribuição dos entrevistados por país, o que limita a comparação direta com o mercado brasileiro.



