Sandro Valeri passou 18 anos na Embraer, onde ajudou a fundar a EmbraerX, no Vale do Silício. Aos 51 anos, sem saber programar, investiu cerca de R$ 10 mil para criar sozinho a Pulso AI, plataforma de análise e due diligence de startups, segundo reportagem do NeoFeed publicada nesta sexta-feira (16).
A empresa está no ar há dois meses, opera com 14 agentes de IA, tem mais de 70 assinantes e fatura entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por mês. Valeri diz que o produto reduz processos de semanas para minutos. Ele pretende lançar versões para a América Latina e os Estados Unidos em 2027.
Três fundadores, uma equipe de software de bolso
William Silva, de 50 anos, deixou em junho o cargo de head de dados e IA da Estapar para tocar a pitchy.me, criada no início de 2026. Tem oito clientes e cinco estagiários de tecnologia. Ele estima que, sem IA, precisaria de pelo menos dez profissionais e três anos, com cerca de dez vezes mais recursos, e calcula que suas horas de trabalho equivalem a R$ 1 milhão.
Luiz Brito, de 34 anos, construiu o Catálogo Web nos intervalos do emprego de engenheiro de software na Thomson Reuters. A ferramenta para pequenos varejistas foi lançada em agosto, com planos de cerca de R$ 200, e tem 40 usuários. Brito afirma que um sistema assim levaria de seis meses a um ano com ao menos quatro desenvolvedores. Ele terminou o seu em quatro meses, sozinho.
Lá fora, os números são maiores. De acordo com o NeoFeed, startups de perfil solo responderam por 63% das aberturas de empresas na Stripe no segundo trimestre de 2026, recorde histórico. A Medvi, de venda de medicamentos à base de GLP-1, teve receita de US$ 401 milhões em 2025 com o fundador e um funcionário, o irmão dele, e projeta US$ 1,8 bilhão para 2026.
Onde o modelo de fundador solo trava
Rodrigo Borges, da DOMO.VC, reconhece a velocidade para testar e mudar de rumo, mas vê um sentimento de superpoder nessa fase. No médio prazo, disse ele, o fundador sozinho não consegue ser ao mesmo tempo especialista em crescimento, diretor de tecnologia e vendedor. Borges também prevê que muitas dessas startups vão precisar de mais dinheiro para se destacar.
Arthur Frota, da AFPAR, afirmou que o desenvolvimento ficou mais barato, mas o problema da distribuição continua. Por isso ele prefere falar em mínimo produto distribuível, e não em MVP. Gabriel Sidi, da EXT Capital, disse que o patamar mínimo subiu, enquanto a responsabilidade do empreendedor permanece a mesma.
Romero Rodrigues, da XP e da Headline, tem uma avaliação que favorece quem já está estabelecido: para ele, a IA tende a fortalecer empresas incumbentes, que têm mais capacidade de distribuir ferramentas do tipo. Pelo que ele disse ao NeoFeed, setores com um líder muito forte provavelmente ficam fora da mira do fundo.
O que isso muda para quem investe e quem contrata
Para o investidor, o custo de construir um produto caiu, e o filtro passa a ser a capacidade de vender e de manter clientes. Valeri resume o risco no próprio dia a dia: ficar preso diante do computador e deixar de fazer relacionamento. Os três fundadores brasileiros ouvidos pelo NeoFeed ainda operam com poucas dezenas de clientes, bem longe dos casos americanos.
Para o mercado de trabalho, o exemplo de Silva pesa: o que antes pedia dez profissionais e três anos hoje é tocado por um executivo e cinco estagiários. Se os fundadores solo conseguirem escalar sem equipes grandes, a demanda por desenvolvedores em startups de estágio inicial tende a encolher, e os fundos terão de decidir se pagam por crescimento ou por distribuição.



