As ações de fabricantes de chips tiveram nesta terça-feira (13) uma das piores sessões do ano, e a Reuters, em texto publicado pelo InfoMoney, avalia que o movimento é o sinal mais forte até agora de que o humor sobre o investimento em inteligência artificial está mudando. O gatilho apontado pela agência é a alta dos juros, que ameaça encarecer o financiamento de uma onda de gastos maior que a do boom ferroviário americano.
Na Coreia do Sul, a venda de papéis do setor chegou ao quinto dia seguido, e o Kospi caiu mais de 6%. É a pior sequência de perdas do índice em mais de dois anos, e ele está cerca de 25% abaixo da máxima de julho. Na segunda-feira (12), a Samsung Electronics havia recuado 10% e a SK Hynix, 8%. Em Tóquio, a fabricante de memórias Kioxia perdeu 13%, e o STAR Market, a bolsa de tecnologia de Xangai, está mais de um terço abaixo do pico do mês de julho.
O que mudou desde a queda do Kospi
Nos Estados Unidos, o índice de semicondutores SOX caiu 2,7% na terça, depois de igual queda na segunda, e caminhava para a sexta baixa consecutiva. Até o início do pregão, ele acumulava alta de 68% em 2026. A Micron recuou 5% depois de triplicar de valor no ano. Segundo a Reuters, são as perdas mais fortes desde a derrocada do fim de julho.
O braço de pesquisa da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, rebaixou na segunda-feira a perspectiva para as bolsas americanas para neutra. A casa citou a possível volatilidade em torno da expansão da IA e passou a ver com otimismo os títulos de curto prazo do Tesouro.
O FMI, em seu relatório de estabilidade financeira divulgado nesta terça, afirmou que as consequências de uma correção no setor de IA podem ser globais. O fundo reconheceu a contribuição da tecnologia para o crescimento, mas disse haver evidências crescentes de que os investimentos em capacidade e os ganhos econômicos talvez não sejam tão grandes quanto o esperado.
Crédito mais caro para quem constrói data centers
O dinheiro que sustentou a corrida por infraestrutura de computação começa a ficar mais seletivo. A Firmus, operadora de data centers apoiada pela Nvidia, suspendeu na semana passada um IPO de US$ 5 bilhões na Austrália por falta de interesse dos investidores. Em Hong Kong, a Tencent vendeu títulos em dólar nesta terça com orientação para papéis de dez anos cerca de 1,15 ponto percentual acima dos Treasuries, que rendem 5,2%.
A SoftBank, no mês passado, emitiu o maior pacote de dívida de alto rendimento da história e prometeu pagar até 9,75% ao ano sobre US$ 4,5 bilhões, com prazo de sete anos e meio. Segundo a Reuters, as rachaduras nesse mercado de crédito apareceram em junho. O presidente-executivo da Broadcom, que a matéria não nomeia, disse em conferências em Cingapura que o capital é o maior obstáculo ao crescimento do setor.
Leitura dos gestores e o efeito no Brasil
Os analistas ouvidos pela Reuters divergem sobre o tamanho do problema. Damien Boey, da Wilson Asset Management, em Sydney, afirmou que o ponto central é a volatilidade dos títulos, que começa a contaminar os preços de ativos em todos os setores, e chamou a situação de muito incômoda em várias frentes. Marc Velan, da Lucerne Asset Management, em Cingapura, disse que a sessão sul-coreana revela mais sobre posicionamento e custo de capital do que sobre piora na demanda por IA, e que suspeita estar começando a próxima fase do ciclo, não o seu fim.
Para o investidor brasileiro, a consequência prática passa por duas frentes. Fundos e BDRs ligados a Nvidia, Micron e outras empresas do setor seguem a oscilação das bolsas americanas e asiáticas. E um Treasury a 5,2% mantém o dólar forte e o capital caro para projetos de infraestrutura digital, o que pesa sobre planos de data centers que dependem de financiamento externo.



