A Anthropic anunciou, em setembro, que seu modelo de inteligência artificial Claude ajudou a identificar um possível novo mecanismo de edição genética em vírus, mas a descoberta gerou controvérsia entre cientistas porque o estudo não foi publicado nem passou por revisão por pares, segundo reportagem da CNN Brasil divulgada nesta sexta-feira (9).
O anúncio partiu do próprio executivo-chefe da empresa, Dario Amodei, que divulgou a informação em rede social e também por comunicado de imprensa. Segundo a Anthropic, o Claude ajudou a localizar um padrão incomum de DNA em bacteriófagos, os vírus que atacam bactérias, e a empresa diz suspeitar que esse padrão corresponda a uma máquina molecular com função parecida à do sistema CRISPR Cas-9, hoje usado para editar genes.
Como o Claude chegou ao resultado
De acordo com a Anthropic, a descoberta veio de um processo automatizado em larga escala. A empresa afirma que 950 agentes de inteligência artificial vasculharam bancos de dados genéticos durante 21 horas. Desse trabalho, o sistema selecionou 3.500 sequências candidatas e depois reduziu a lista às 20 consideradas mais relevantes para estudos posteriores.
A Anthropic apresentou o resultado como evidência da capacidade do Claude de contribuir para pesquisas científicas complexas sem a mesma velocidade de checagem que normalmente acompanha um achado biológico desse porte.
Por que cientistas questionam o anúncio
A reportagem da CNN Brasil ouviu pesquisadores que contestam o alcance da descoberta. Aaron Engelhart, da Universidade de Minnesota, disse que os resultados são preliminares e interessantes, mas que, até o momento, não demonstram edição genética de fato.
Mario Rodríguez Mestre, da Universidade de Copenhague, afirmou ter pesquisa própria, ainda não publicada, que já descrevia as mesmas assinaturas virais identificadas pelo Claude. Segundo ele, a conclusão é essencialmente a mesma a que seu grupo já havia chegado antes do anúncio da Anthropic.
Ilya Finkelstein, da Universidade do Texas, disse que ferramentas de inteligência artificial funcionam bem em tarefas repetitivas quando orquestradas por especialistas da área. Ele apontou um risco: descobertas anunciadas por empresas de IA antes de qualquer publicação científica podem desestimular pesquisadores que já trabalhavam no mesmo tema.
A revisão por pares que a Anthropic ainda não enfrentou
A própria reportagem destaca que a pesquisa da Anthropic não foi publicada em revista científica com revisão por pares, etapa em que outros especialistas analisam método e dados antes de validar um achado. Sem essa checagem, a função real das sequências de DNA encontradas pelo Claude segue sem confirmação independente.
O episódio reacende a discussão sobre como empresas de tecnologia devem comunicar resultados científicos obtidos com apoio de inteligência artificial, especialmente quando o anúncio chega primeiro pelas redes sociais do que pela comunidade acadêmica.



