O mercado espera uma temporada de balanços do terceiro trimestre majoritariamente fraca para as empresas brasileiras, segundo reportagem da CNN Brasil publicada nesta quarta-feira (21). Os analistas ouvidos apontam juros ainda elevados e inadimplência das famílias em nível recorde como os principais pesos sobre os resultados.
A exceção deve vir das companhias ligadas a commodities e energia. Lá fora, o desempenho esperado é melhor, puxado por tecnologia e inteligência artificial.
Desaceleração chega ao resultado das empresas
Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP, afirmou que os sinais de perda de ritmo da economia, com IBC-Br, varejo e indústria abaixo do esperado, devem aparecer nos balanços. Na comparação com o terceiro trimestre de 2025, a XP projeta um leve viés de baixa e algumas surpresas negativas.
Empresas com custo de dívida alto sofrem mais, de acordo com Figueredo, e o efeito de um ciclo de corte de juros demora a chegar ao caixa. Para ele, as eleições afetam primeiro a curva de juros, depois a percepção de preços e só então os fundamentos das companhias.
Gustavo Cruz, CIO da Sincra, citou os recordes de inadimplência registrados pelo Banco Central e disse que por isso é difícil falar em uma grande empresa se destacando. Ele afirmou que as prévias das construtoras vieram ruins, com alta de distratos, e que as empresas vinham limitando projetos havia bastante tempo, o que enfraquece o resultado operacional. Para o quarto trimestre, Cruz prevê um quadro praticamente igual.
Bancos concentram as atenções
João Daronco, analista da Suno Research, espera que os bancos fiquem no centro do debate, com inadimplência crescente no mesmo padrão do segundo trimestre. A reportagem lembra que pesquisa do Banco Central publicada em agosto mostra que as próprias instituições esperavam piora no terceiro trimestre, apesar do programa Desenrola. Cruz também prevê deterioração em bancos, no setor financeiro e em varejistas com braço financeiro, tanto em crédito de pessoas físicas quanto de empresas.
Petróleo sustenta energia e pressiona exportadores
O Brent acima de US$ 100, por causa do conflito geopolítico, deve beneficiar petroleiras e empresas de gás natural, afirmou Caio Borges, da Eleven Financial. Figueredo, da XP, citou Vibra e Ultrapar entre as beneficiadas, como produtoras e distribuidoras de combustíveis. Daronco vê forte geração de caixa em commodities e energia.
Há um lado negativo. Daronco alertou que a depreciação do dólar reduz o caixa dos exportadores. Borges disse que o diesel subiu mais do que o petróleo por causa de ataques ucranianos a refinarias russas, o que pode pressionar margens de exportadoras de outros setores.
Wall Street, IA e o que olhar no quarto trimestre
No exterior, William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, projeta para as empresas do S&P 500 crescimento de receitas de cerca de 10% e de lucros entre 25% e 30% no terceiro trimestre. Segundo ele, tecnologia e serviços de comunicação devem ser os principais responsáveis, com Nvidia e Meta entre os exemplos. Ele listou três pontos de atenção: retorno dos investimentos em IA, preservação de margens e perspectivas para os próximos trimestres, num setor em que as expectativas de lucro estão particularmente elevadas.
Quem sente primeiro
Para o investidor, a leitura dos analistas é de seletividade: energia e petróleo concentram a expectativa positiva, enquanto bancos, construtoras e varejistas com crédito próprio carregam o risco de surpresa negativa. O segundo turno, no domingo (25), deve direcionar a curva de juros futuros e as expectativas para 2027, de acordo com a reportagem.
Daronco enxerga possível melhora no quarto trimestre no varejo alimentício, com Assaí e Grupo Mateus, por causa do fim das bets no Brasil, que deve liberar renda para o consumo. Cruz, por sua vez, não espera virada: para ele, o último trimestre do ano repete o terceiro.



