O vice-presidente do Banco do Japão (BoJ), Shinichi Uchida, afirmou em discurso publicado no site da instituição nesta segunda-feira (5) que o boom global da inteligência artificial pode ter deixado as condições financeiras mais frouxas ao estimular a demanda e elevar o preço dos ativos. A informação é da Reuters, reproduzida por veículos brasileiros, entre eles o Valor Econômico. Uchida também alertou para o risco de uma retração do mercado caso os lucros esperados não se concretizem.
Segundo o dirigente, a IA funcionou como um grande choque positivo de demanda, que pressionou para cima a economia e os preços. A leitura dele é de que, a princípio, o lado da demanda veio primeiro e tornou as condições financeiras mais acomodatícias no conjunto. Em outras palavras, o dinheiro e o ânimo dos investidores chegaram antes de qualquer ganho comprovado de produtividade.
É nesse ponto que entra a ressalva. Uchida disse que existe risco de correção se os lucros não acompanharem o ritmo do investimento. O recado vem de um banco central que já elevou os juros em junho e em setembro, e que tem a inflação de 2% como meta.
Dívida das empresas de IA empurra os juros longos
O discurso aponta um efeito que corre em sentido contrário ao das ações em alta. A emissão enorme de títulos por empresas ligadas à IA, para financiar a construção de capacidade, exerceu pressão de alta sobre as taxas de juros de longo prazo. Ou seja, o mesmo movimento que valoriza ativos e solta o crédito para uns também encarece o dinheiro de prazo mais longo para o restante da economia.
Uchida acrescentou que a tecnologia pode elevar a produtividade e ampliar o estoque de capital, o que, por sua vez, pode alterar a taxa de juros natural de um país. Segundo a reportagem, o BoJ vai continuar examinando dados econômicos e financeiros para formar um quadro consistente sobre o efeito da IA. O tema, de acordo com o dirigente, já faz parte das reuniões de política monetária de bancos centrais, inclusive a do BoJ.
Petróleo e iene complicam a conta do Japão
A IA não é o único fator de pressão sobre os preços japoneses. A Reuters lembra que o Japão importa quase todo o petróleo bruto que consome, principalmente do Oriente Médio, e que o fechamento do Estreito de Ormuz, ligado à guerra no Irã, atingiu o fornecimento. A desvalorização do iene encarece ainda mais as importações.
Nesse quadro, a inflação subjacente deve ficar acima da meta de 2%, de acordo com a reportagem. O BoJ, portanto, olha ao mesmo tempo para um choque de oferta de energia, para um câmbio fraco e para uma demanda aquecida pelos investimentos em IA, três fontes de pressão que não se separam com facilidade nos dados.
O que a fala sinaliza para quem investe
O discurso não anunciou nenhuma decisão sobre juros. O que ele registra é que um dos principais bancos centrais do mundo já trata a valorização dos ativos de IA como parte do problema de política monetária, e não só como assunto de mercado. Para o investidor brasileiro com exposição a ações de tecnologia ou a fundos globais, o aviso de Uchida reforça que os preços atuais dependem de lucros que ainda precisam aparecer.
Há ainda um efeito indireto: se o BoJ seguir elevando juros diante de preços pressionados, o custo do dinheiro no Japão, tradicional fonte de crédito barato para operações globais, tende a subir. A próxima leitura virá das reuniões do banco, onde o tema da IA já está na pauta.
Fontes consultadas
- Valor Econômico — BC do Japão diz que ‘boom’ de IA pode ter amenizado condições financeiras e alerta para riscos do mercado
- Terra (Reuters) — BC do Japão diz que boom da IA pode ter amenizado as condições financeiras e alerta para riscos do mercado
- InvestingLive — BOJ's Uchida says AI is a big demand shock lifting prices, warns of correction risk



