segunda-feira, 5 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Banco do Japão admite que a IA afrouxou o crédito e avisa que o mercado pode corrigir

Shinichi Uchida, vice-presidente do BoJ, disse que a demanda por IA veio primeiro e deixou as condições financeiras mais frouxas, mas há risco de correção se os lucros não acompanharem o investimento.

Distrito financeiro de Tóquio ao entardecer
O Banco do Japão elevou juros em junho e setembro e agora discute o peso da IA sobre preços e crédito. Foto: Pexels / Johnny Song

O vice-presidente do Banco do Japão (BoJ), Shinichi Uchida, afirmou em discurso publicado no site da instituição nesta segunda-feira (5) que o boom global da inteligência artificial pode ter deixado as condições financeiras mais frouxas ao estimular a demanda e elevar o preço dos ativos. A informação é da Reuters, reproduzida por veículos brasileiros, entre eles o Valor Econômico. Uchida também alertou para o risco de uma retração do mercado caso os lucros esperados não se concretizem.

Segundo o dirigente, a IA funcionou como um grande choque positivo de demanda, que pressionou para cima a economia e os preços. A leitura dele é de que, a princípio, o lado da demanda veio primeiro e tornou as condições financeiras mais acomodatícias no conjunto. Em outras palavras, o dinheiro e o ânimo dos investidores chegaram antes de qualquer ganho comprovado de produtividade.

É nesse ponto que entra a ressalva. Uchida disse que existe risco de correção se os lucros não acompanharem o ritmo do investimento. O recado vem de um banco central que já elevou os juros em junho e em setembro, e que tem a inflação de 2% como meta.

Dívida das empresas de IA empurra os juros longos

O discurso aponta um efeito que corre em sentido contrário ao das ações em alta. A emissão enorme de títulos por empresas ligadas à IA, para financiar a construção de capacidade, exerceu pressão de alta sobre as taxas de juros de longo prazo. Ou seja, o mesmo movimento que valoriza ativos e solta o crédito para uns também encarece o dinheiro de prazo mais longo para o restante da economia.

Uchida acrescentou que a tecnologia pode elevar a produtividade e ampliar o estoque de capital, o que, por sua vez, pode alterar a taxa de juros natural de um país. Segundo a reportagem, o BoJ vai continuar examinando dados econômicos e financeiros para formar um quadro consistente sobre o efeito da IA. O tema, de acordo com o dirigente, já faz parte das reuniões de política monetária de bancos centrais, inclusive a do BoJ.

Petróleo e iene complicam a conta do Japão

A IA não é o único fator de pressão sobre os preços japoneses. A Reuters lembra que o Japão importa quase todo o petróleo bruto que consome, principalmente do Oriente Médio, e que o fechamento do Estreito de Ormuz, ligado à guerra no Irã, atingiu o fornecimento. A desvalorização do iene encarece ainda mais as importações.

Nesse quadro, a inflação subjacente deve ficar acima da meta de 2%, de acordo com a reportagem. O BoJ, portanto, olha ao mesmo tempo para um choque de oferta de energia, para um câmbio fraco e para uma demanda aquecida pelos investimentos em IA, três fontes de pressão que não se separam com facilidade nos dados.

O que a fala sinaliza para quem investe

O discurso não anunciou nenhuma decisão sobre juros. O que ele registra é que um dos principais bancos centrais do mundo já trata a valorização dos ativos de IA como parte do problema de política monetária, e não só como assunto de mercado. Para o investidor brasileiro com exposição a ações de tecnologia ou a fundos globais, o aviso de Uchida reforça que os preços atuais dependem de lucros que ainda precisam aparecer.

Há ainda um efeito indireto: se o BoJ seguir elevando juros diante de preços pressionados, o custo do dinheiro no Japão, tradicional fonte de crédito barato para operações globais, tende a subir. A próxima leitura virá das reuniões do banco, onde o tema da IA já está na pauta.

MB

Repórter de Política e Economia do Real Nacional. Cobre Brasília, Congresso, tribunais, contas públicas e as eleições de 2026. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.