Jeff Bezos, fundador da Amazon, afirmou em entrevista à Fox News nesta semana que os ganhos de produtividade da inteligência artificial devem levar parte dos trabalhadores a uma jornada de apenas três dias por semana. A declaração foi publicada pela Fortune e reproduzida pelo InfoMoney neste sábado (10).
Segundo o bilionário, a abundância de riqueza e de recursos criada pela tecnologia tornará mais comum que famílias vivam com uma única fonte de renda. Ele disse que algumas pessoas concluirão que conseguem sustentar a casa trabalhando três dias, e que isso pode gerar escassez de mão de obra: com menos famílias dependentes de dois salários, afirmou, será difícil contratar.
O que a Amazon faz enquanto Bezos promete tempo livre
A previsão convive com números da própria empresa. De acordo com a Fortune, a Amazon planeja investir mais de US$ 200 bilhões em despesas de capital neste ano, principalmente em data centers. No mesmo período, eliminou cerca de 30 mil cargos corporativos desde o fim do ano passado.
O texto da Fortune aponta essa tensão: a promessa de produtividade e de mais tempo livre aparece ao lado de cortes de vagas e de incerteza para quem trabalha enquanto as companhias se reestruturam. Bezos não detalhou, segundo a publicação, como a transição seria feita para quem perde o posto.
Ele também se posicionou em contraste com Dario Amodei, da Anthropic, e Sam Altman, da OpenAI, que têm alertado para os riscos da tecnologia. Questionado se a IA vive uma bolha, Bezos respondeu que é difícil saber, mas disse que a tecnologia é real e boa para a sociedade. Para ele, os investidores têm dificuldade em separar boas ideias das ruins porque todo projeto consegue financiamento.
Outros executivos apostam em jornadas menores
Bezos não está sozinho na aposta. A Fortune lembra que Jensen Huang, da Nvidia, disse que a IA provavelmente levará a uma semana de quatro dias. Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, prevê que funcionários trabalhem três dias e meio. Bill Gates já sugeriu uma semana de dois dias, e Elon Musk afirmou, no fim do ano passado, que o trabalho será opcional em algo entre 10 e 15 anos, talvez menos de 20.
As projeções variam de dois a quatro dias, e nenhuma vem acompanhada de cronograma comprovado ou de mecanismo para dividir os ganhos de produtividade com os empregados. O próprio Bezos fala em decisão individual de quem consegue viver com menos horas, não em mudança de regra.
Quem paga a conta da transição
Para o empregado, a diferença entre trabalhar menos e ser dispensado está em quem captura o ganho. Hoje, os números da Amazon mostram o dinheiro indo para data centers e as vagas saindo do quadro corporativo. A visão de escassez de mão de obra, se vier, é uma projeção de Bezos, não um dado medido.
No Brasil, onde o debate sobre a escala 6x1 e sobre o efeito da IA no emprego corre em paralelo, a fala funciona como argumento de executivos americanos, e não como indicador. O que pode ser acompanhado nos próximos meses é se as empresas que investem em IA em escala, como a Amazon, mantêm ou ampliam os cortes de cargos enquanto sustentam a promessa de jornadas menores.



