O BNDES deve encerrar 2026 com aprovações de crédito em infraestrutura superiores a R$ 95 bilhões, o maior volume desde 2014. No primeiro semestre, o número de consultas de empresas ao banco, primeira etapa do processo de financiamento, mais que triplicou na comparação com o mesmo período do ano passado, em meio à escassez de recursos no mercado de capitais. Os dados foram publicados nesta terça-feira (8) pelo Valor Econômico.
A expansão ocorre num contexto de juros estruturalmente altos no Brasil e de migração parcial da captação privada para debêntures incentivadas, instrumento que conta com isenção de IR para projetos de infraestrutura. Procuradores do banco e técnicos do Ministério do Planejamento já tinham sinalizado, em abril, que a demanda pelo BNDES voltou ao padrão do ciclo de obras do PAC, quando o banco era praticamente o único financiador de porte disponível.
A disputa com os bancos privados
A maior presença do BNDES em 2026 vem sendo alvo de críticas de grandes bancos privados que coordenam emissões de debêntures incentivadas. Para executivos dessas instituições, o banco estatal pode estar indo além do que deveria ser o seu papel, com atuação marcante em operações que, segundo eles, encontrariam solução direta no mercado. A leitura interna do BNDES é diferente: a escassez de crédito privado forçou a instituição a ocupar o vácuo deixado pelos bancos comerciais.
Para onde vai o dinheiro
Os desembolsos do BNDES em infraestrutura em 2026 se concentram em quatro frentes. Saneamento responde pela maior fatia, com aportes em concessões estaduais e municipais que assumiram ativos antes operados por estatais locais. Energia e transmissão aparecem em segundo, puxados por projetos de transição energética,储能 equivalente em português a armazenamento de energia, e modernização de redes. Logística responde por uma terceira fatia, com ferrovias e portos, e vem em seguida o bloco de mobilidade urbana, incluindo metrô e trens regionais.
O banco também retomou neste ano linhas de financiamento para projetos de descarbonização e eficiência energética de grandes consumidores industriais, segmento que ficou em segundo plano entre 2022 e 2024. A combinação entre a reabertura dessas linhas e o volume de consultas acima da média explica por que a projeção de R$ 95 bilhões pode ser superada sem grande esforço, dizem técnicos da área de planejamento do banco.
Próximos passos
A próxima vitrine do BNDES em 2026 será a divulgação do balanço do terceiro trimestre, prevista para novembro, quando o banco deve atualizar a projeção de aprovações e detalhamento por setor. Mercadante tem usado as apresentações externas do banco para defender que a expansão do crédito em infraestrutura não é concorrência desleal com o mercado privado, mas resposta ao vácuo deixado por ele, em meio ao ciclo de aperto monetário.



