sexta-feira, 9 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Rejeição de brasileiros a comprar com IA cai de 27% para 6%, mas 41% exigem o último clique

Pesquisa da Global Payments com mais de 8 mil consumidores mostra o Brasil em segundo lugar na aceitação de agentes de compra, com 72%, atrás só da China. A maioria, porém, só topa se puder aprovar antes de pagar.

Pessoa usando um celular para fazer compras online
Consumidores brasileiros aceitam delegar buscas e comparações à IA, mas ainda querem aprovar o pagamento, segundo a Global Payments. Foto: Pexels / RDNE Stock project

Os brasileiros estão deixando de rejeitar agentes de inteligência artificial que compram em seu nome. Segundo pesquisa da Global Payments divulgada pela Exame nesta sexta-feira (9), a recusa no país caiu de 27% para 6% em um ano, e 72% dizem aceitar que um agente faça compras por eles. É a segunda maior taxa entre os seis países avaliados.

O levantamento ouviu mais de 8 mil consumidores nos Estados Unidos, na França, no Brasil, na China, em Singapura e na Austrália. A reportagem não detalha quantas pessoas foram entrevistadas em cada país.

Onde o brasileiro ainda segura a carteira

A aceitação cai conforme a IA ganha autonomia. Somando todos os países, 74% topam usar a ferramenta para comparar preços e 69% para buscar um produto ou serviço. Quando o agente conclui a compra e o consumidor só aprova no final, o índice vai a 59%. Para um processo totalmente autônomo, fica em 21%.

No Brasil, o freio aparece de forma clara: 41% dos entrevistados aceitam a transação feita por IA apenas se tiverem de confirmar antes de a compra ser finalizada. Na China, que lidera com 86% de conforto com agentes de compra, o número é parecido, 39%.

Os países mais cautelosos são anglófonos. Nos Estados Unidos, 45% se dizem abertos à possibilidade. Na Austrália, a taxa é a menor do grupo, 41%.

O que preocupa quem vende

Para Juan Pablo Dantiochia, gerente-geral de Enterprise da Global Payments, o comércio conduzido por agentes já começa a levantar dúvidas dentro das empresas. Ele disse que a segurança do comércio eletrônico foi construída sobre a premissa de que todo comportamento de robô é tentativa de fraude. Por isso, afirmou, muita coisa precisa mudar antes de o varejo online aceitar ordens de compra geradas por IA.

Dantiochia também separa os tipos de compra. Segundo ele, há itens totalmente utilitários, como as compras de mercado, em que a delegação faz sentido. Em outros casos, como um sapato sofisticado comprado em loja, o consumidor não entregaria a decisão ao ChatGPT. "Algumas compras requerem fricção", disse.

A automação total, de acordo com o executivo, pode prejudicar a venda de produtos aspiracionais e levar à commoditização, o que comprime a margem das empresas. Ele listou perguntas que, segundo ele, ainda não têm resposta: como as marcas mantêm a conexão com o cliente, se a próxima fase vira uma guerra de preços e como as empresas se diferenciam para entregar produtos de maior valor.

Quem precisa se mexer primeiro

A conta recai sobre dois grupos. Lojas e meios de pagamento terão de revisar filtros antifraude que hoje tratam qualquer automação como ameaça, sob risco de barrar compras legítimas feitas por agentes. As áreas de marketing, por sua vez, enfrentam um problema que Dantiochia descreveu: o trabalho atual em redes sociais e construção de marca não passa pelos agentes de IA, que decidem com base em outros critérios.

Com 41% dos brasileiros exigindo a etapa final de aprovação, o desenho mais provável no curto prazo é o agente que pesquisa, compara e monta o carrinho, enquanto o consumidor mantém o clique de confirmação. Para o varejo, isso preserva a decisão humana, mas desloca a disputa para a fase em que a IA escolhe o que mostrar.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.