O pesquisador Justin Drake, ligado ao Ethereum, publicou na quarta-feira (7), na rede X, um alerta para que a comunidade cripto entre em modo bunker. Segundo reportagem da Exame desta quinta-feira (8), ele afirma que a criptografia que protege as blockchains pode ser quebrada em meses, e não em anos, por avanços matemáticos obtidos com inteligência artificial.
O alvo apontado por Drake é o ECDSA, algoritmo de assinatura digital baseado em curvas elípticas, usado para provar que o dono de uma carteira autorizou uma transação. Até agora, a ameaça mais discutida a esse sistema era o Q-Day, a data hipotética em que um computador quântico grande o bastante conseguiria deduzir chaves privadas a partir de chaves públicas. Drake argumenta que a IA pode chegar lá antes, por um atalho matemático que rode em computadores comuns.
Por que ele aponta as curvas elípticas
Drake cita resultados recentes que derrubaram suposições matemáticas antigas e menciona a produção recente da OpenAI em matemática como sinal de que o ritmo mudou. Para ele, as curvas elípticas são mais expostas do que as funções de hash, porque estas foram desenhadas para ter o mínimo de estrutura algébrica, e aquelas oferecem mais espaço para ataque.
A Exame ressalva que o algoritmo quântico para esse tipo de quebra, conhecido como Shor, já existe no papel, mas o computador capaz de rodá-lo contra chaves reais não existe. A rota via IA, por sua vez, depende de alguém encontrar um atalho que ainda não foi demonstrado.
O que ele recomenda e o que Buterin respondeu
A orientação de Drake é que detentores, sobretudo os grandes e sofisticados, passem a maior parte dos fundos para endereços que nunca assinaram uma transação, as chamadas carteiras virgens. Nesses endereços a chave pública ainda não foi exposta, o que dificulta um ataque. Ele pede que a migração seja feita sem pressa, porque uma mudança apressada pode causar mais dano do que o risco que pretende evitar. Também cobra que grandes instituições deem o exemplo e defende, como solução de longo prazo, criptografia baseada em hash.
Vitalik Buterin, criador do Ethereum, tem posição diferente, de acordo com a reportagem. Ele não recomenda mover fundos para carteiras novas agora, mas diz que a criptografia baseada em reticulados, outra família de algoritmos considerada resistente, poderia sofrer golpes sérios da matemática feita por IA em até dois anos.
O contraponto do BTG Pactual
Matheus Parizotto, head de pesquisa de ativos digitais do BTG Pactual, afirmou à Exame que o prazo de meses é um cenário extremo e sem demonstração técnica por trás. O BTG pertence ao mesmo grupo empresarial da Exame, informação que a própria reportagem registra. Parizotto recomenda que o investidor acompanhe evidências concretas e melhorias nas proteções, em vez de tratar uma hipótese de risco como perda certa.
O que o investidor tem de decidir agora
Para quem guarda criptomoedas, a divergência entre Drake e Buterin se traduz em uma escolha prática: mover ou não os fundos para endereços que nunca assinaram uma transação. Nenhum dos dois apresentou até agora um ataque funcional, e a Exame não relata prova de que o atalho matemático exista. O risco descrito é uma hipótese de pesquisador, com consequência possível sobre qualquer saldo cujo endereço já tenha exposto a chave pública, e a recomendação de Drake vale, segundo ele, para os maiores detentores primeiro.



