A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para domingo (4), vídeos e áudios de candidatos circulam em alta velocidade por redes sociais e aplicativos de mensagens, e a inteligência artificial já reproduz rostos e vozes com qualidade suficiente para enganar. Segundo reportagem do Canaltech publicada nesta quarta-feira (30), procurar erros na imagem deixou de bastar para saber se uma gravação é verdadeira.
Paulo Baldin, especialista em cibersegurança, proteção de dados e governança digital da CLA Brasil, afirmou ao Canaltech que movimentos estranhos da boca, deformações no rosto, sombras incoerentes e problemas em mãos e acessórios ainda podem levantar suspeita. Esses sinais, disse ele, devem ser tratados como alertas e não como prova de manipulação. Um conteúdo falso pode parecer perfeito, e um vídeo verdadeiro pode apresentar falhas.
O caso do áudio atribuído a Renan Santos
O exemplo mais recente citado pela reportagem é o de um áudio falso atribuído ao candidato Renan Santos, do Missão, verificado em setembro pelo Projeto Comprova. A análise com a ferramenta Hive Moderation apontou 99,2% de probabilidade de que a fala tenha sido gerada artificialmente.
O material também usava elementos visuais do The Intercept Brasil para parecer autêntico. O veículo confirmou ao Comprova que não havia produzido nem publicado aquele conteúdo.
Por que o ouvido não resolve
A dificuldade não está só nas imagens. Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports, citado pelo Canaltech, avaliou a detecção de vozes sintéticas: os participantes identificaram corretamente as vozes geradas por IA em cerca de 60% das tentativas. Ao comparar uma voz real com o clone dela, consideraram que as duas pertenciam à mesma pessoa em aproximadamente 80% dos casos.
Na prática, a checagem depende menos da percepção e mais de método. Baldin recomenda cinco passos. O primeiro é procurar a publicação original, buscando pelo nome do candidato e por palavras da declaração para achar a gravação completa. O segundo é conferir a data, porque vídeos antigos ressurgem sem contexto.
Os demais são assistir ao material inteiro, em vez de tirar conclusões de um trecho, buscar confirmação independente em veículos jornalísticos, agências de checagem e canais oficiais, e verificar quem publicou. Nesse último ponto, o endereço exato da conta e os links divulgados importam. Uma conta com poucos seguidores ou criada recentemente não pode ser considerada falsa só por essas características, afirmou o especialista.
A regra do TSE para a reta final
A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral também entra na checagem. Pelo texto citado na reportagem, nas 72 horas que antecedem o pleito e até 24 horas depois do fim da votação ficam proibidas a publicação, a republicação e o impulsionamento de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que usem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas.
Para o eleitor, a regra funciona como um filtro adicional: um vídeo novo de candidato, feito com IA e divulgado a partir de quinta-feira (1º), já nasce em desacordo com a norma. A reportagem não detalha como será a fiscalização nem as sanções previstas.



