Pelo menos 554 vídeos e imagens do tipo deepfake foram publicados nas redes durante a campanha do primeiro turno das eleições de 2026, segundo o projeto VigIA, da agência de checagem Lupa, em relatório divulgado em 1º de outubro. Do total, 29 foram disseminados por perfis de candidatos ou partidos, o que pode render sanções.
O monitoramento cobriu o período de 16 de agosto a 28 de setembro. De 1.941 publicações suspeitas, a equipe confirmou o uso de inteligência artificial em 920. Os deepfakes respondem por 60% desse conjunto. O trabalho conta com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp.
Quem publica e o que mostra
Usuários comuns respondem por 47% das publicações, perfis desconhecidos por 27% e contas oficiais de candidaturas por 24,5%. Entre as publicações irregulares, 549 no total, 75 saíram de candidatos ou partidos. Os formatos mais comuns são jornalistas anunciando notícias inventadas e celebridades declarando apoio falso a candidatos.
Em 414 casos (45%), o conteúdo promovia uma candidatura. Cerca de 25% atacavam candidatos ou outras pessoas, e uma proporção parecida era de humor ou sátira. Só 371 publicações, 40% do total, traziam o rótulo de conteúdo feito com IA.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em 379 publicações, das quais 39% de humor ou sátira e 34% de ataques à candidatura. Flávio Bolsonaro (PL) é citado em 190, com 40% favoráveis e 28% humorísticas.
O que diz a regra do TSE
A norma do Tribunal Superior Eleitoral proíbe deepfakes na propaganda e prevê sanções que chegam à cassação de candidatura ou de mandato. Para a punição, o conteúdo precisa ser caracterizado como propaganda política e ter verossimilhança capaz de enganar o eleitor. Humor evidente e material rotulado ficam em zona mais confortável, mas o relatório mostra que a maioria não traz aviso.
A pesquisadora Beatriz Farrugia disse que, se a intenção é bloquear a publicação de deepfakes pelo risco que impõem ao entendimento dos eventos políticos, é preciso considerar que a maior parte do material parte de contas de usuários e de avatares anônimos. Cristina Tardáguila, da Lupa, afirmou que encontrar quase um conteúdo com IA por hora, na maioria sem sinalização, dá a dimensão do desafio para o eleitor e para os órgãos fiscalizadores.
Onde a fiscalização encontra o limite
A regra mira candidatos e partidos, mas eles são a menor parte do problema medido: 29 dos 554 deepfakes. O grosso vem de contas que a Justiça Eleitoral tem mais dificuldade de identificar e responsabilizar. Com o segundo turno possível a partir de 25 de outubro, a pressão recai sobre as plataformas, que decidem na prática o que sai do ar e quando.



