A maior parte das empresas de bens de consumo espera ganhar dinheiro com inteligência artificial, mas poucas já ganham. De acordo com o estudo "State of AI in the Consumer Industry: The untapped edge", da Deloitte, 75% dos executivos do setor projetam aumento de receita com a tecnologia, enquanto apenas 18% relatam ganho atribuído a ela até agora. Os dados foram divulgados em reportagem da Exame neste sábado (3).
O recorte do setor de consumo faz parte de uma pesquisa global com 3.235 líderes em 24 países. Foram ouvidos 963 executivos da indústria de consumo, entre agosto e setembro de 2025. A versão global saiu em março de 2026, e a edição brasileira foi apresentada em setembro.
O acesso cresceu mais rápido que o uso
O estudo mostra uma expansão grande na distribuição da ferramenta dentro das empresas. Em um ano, a parcela de trabalhadores com acesso à IA passou de menos de 30% para cerca de 60%. O uso intenso, porém, não acompanhou: só 25% dos entrevistados dizem aplicar IA em 60% ou mais das suas tarefas.
Paulo de Tarso, líder da indústria de consumo na Deloitte, afirmou que o setor deixa de tratar a IA como experimento. Os números do próprio levantamento indicam, no entanto, que a transição ainda está no começo.
Cargos intactos e governança imatura
A principal explicação para o descompasso está na organização do trabalho. Segundo a Deloitte, 82% das empresas não redesenharam funções em torno da inteligência artificial. A tecnologia entra, mas as tarefas, as metas e os fluxos continuam os mesmos.
A governança também está atrasada. Apenas 20% dos respondentes afirmam ter modelos maduros para supervisionar o uso de IA. Entre as barreiras listadas no estudo estão a falta de habilidades profissionais, o preparo dos dados, os controles frágeis sobre agentes autônomos e as preocupações com privacidade e segurança, apontadas por 75% dos líderes.
Agentes e IA física são a próxima aposta
A expectativa das empresas aponta para sistemas que executam tarefas com autonomia. Hoje, 24% usam agentes de IA em nível moderado ou superior. Em dois anos, a projeção é de 73%. No caso da chamada IA física, que inclui robôs e sistemas em operações de campo e fábrica, 65% já usam e 87% esperam usar.
Os dois saltos dependem justamente do que o levantamento mostra como ponto fraco: controles claros, dados organizados e equipes preparadas. Um agente que age sem supervisão amplia o risco de erro em uma empresa sem governança madura.
O que a diferença entre 75% e 18% cobra das diretorias
Para quem investe, a leitura prática é que acesso à ferramenta não basta para gerar retorno. Os 18% que já registram receita com IA tendem a ser as empresas que conectaram a tecnologia a processos definidos, e o estudo coloca a reorganização de funções entre os gargalos centrais. O prazo de dois anos projetado para os agentes dá a medida da urgência: quem não redesenhar cargos e criar regras de supervisão até lá entra na fase seguinte com a mesma lacuna entre expectativa e resultado.



