domingo, 11 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Dívida para data centers de IA cai a US$ 23 bi em setembro e põe à prova pacotes de US$ 100 bi

O volume global de dívida ligada a projetos de inteligência artificial recuou a US$ 23 bilhões em setembro, menos da metade do mês anterior, segundo o Morgan Stanley, bem no momento em que o mercado testa pacotes de US$ 100 bilhões para Anthropic e SpaceX.

Data center em construção, com estrutura metálica e equipamentos de infraestrutura visíveis
A construção de data centers de IA nos Estados Unidos segue acelerada, mesmo com a desaceleração no financiamento via dívida, segundo o Financial Times. Foto: Pexels

A emissão global de dívida ligada a projetos de inteligência artificial caiu para US$ 23 bilhões em setembro, menos da metade do volume captado em agosto, segundo dados do Morgan Stanley citados pelo Financial Times e publicados pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (11). O levantamento soma títulos públicos e operações de colocação privada usadas por empresas de tecnologia para financiar data centers e chips.

A desaceleração acontece depois do pico registrado em junho, quando as empresas levantaram US$ 113 bilhões em dívida vinculada à IA, o maior volume mensal já visto. No mercado americano de títulos com grau de investimento, que reuniu cerca de US$ 306 bilhões em captações de grandes grupos de tecnologia entre janeiro e agosto, a emissão de papéis ligados à IA parou por completo no mês passado, de acordo com o Financial Times.

O Morgan Stanley atribui a queda de setembro, em boa parte, ao volume elevado de dívida que as próprias empresas já haviam captado no início do ano. O banco também aponta uma preocupação crescente entre investidores: se gastos tão altos em infraestrutura de IA vão de fato gerar retorno no longo prazo, num momento em que a construção de novos data centers enfrenta resistência política maior nos Estados Unidos.

Bancos cobram mais e ficam mais seletivos

John Aylward, fundador da gestora de crédito londrina Sona Asset Management, disse durante o Private Capital Summit, promovido pelo Financial Times e pela Latham & Watkins em Londres nesta semana, que o aperto já aparece no dia a dia das negociações.

A pressa por captar recursos também disparou de um ano para o outro. As empresas levantaram cerca de US$ 466 bilhões em dívida vinculada à IA em 2026, segundo o Morgan Stanley, contra US$ 101 bilhões no mesmo período do ano anterior. O volume recorde de oferta deu a investidores de crédito poder para exigir rendimentos mais altos em certos projetos, o que encareceu a captação dos hiperescaladores.

O teste de US$ 100 bilhões para Anthropic e SpaceX

A mudança no humor dos investidores chega em momento delicado para duas operações bilionárias ainda em preparação. Bancos de Wall Street montam um pacote de financiamento de US$ 60 bilhões para Broadcom e Anthropic, enquanto a SpaceX negocia a captação de US$ 40 bilhões para comprar chips da Nvidia, segundo o Financial Times. As duas operações devem ser distribuídas a uma base ampla de investidores nos próximos meses, quando ficará mais claro se o apetite por dívida de IA recuou ou apenas fez uma pausa.

A fatura do data center que ficou sem energia

O caso mais citado pelo Financial Times é o do Project Jupiter, megacampus de data centers da Oracle no Novo México. Cerca de US$ 18 bilhões em empréstimos vinculados ao projeto ficaram sob pressão depois que a empresa emitiu uma notificação de força maior ao enfrentar dificuldade para obter acesso à eletricidade no local. Nos últimos dias, esses empréstimos foram negociados de forma privada a cerca de US$ 0,85 por dólar, segundo pessoas ouvidas pela reportagem.

Rob Dafforn, diretor de investimentos da gestora de dívida problemática Polus Capital, afirmou que a especulação e as operações altamente alavancadas no setor fazem com que parte dos investidores já pague mais do que deveria pelo risco que assume.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.