A emissão global de dívida ligada a projetos de inteligência artificial caiu para US$ 23 bilhões em setembro, menos da metade do volume captado em agosto, segundo dados do Morgan Stanley citados pelo Financial Times e publicados pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (11). O levantamento soma títulos públicos e operações de colocação privada usadas por empresas de tecnologia para financiar data centers e chips.
A desaceleração acontece depois do pico registrado em junho, quando as empresas levantaram US$ 113 bilhões em dívida vinculada à IA, o maior volume mensal já visto. No mercado americano de títulos com grau de investimento, que reuniu cerca de US$ 306 bilhões em captações de grandes grupos de tecnologia entre janeiro e agosto, a emissão de papéis ligados à IA parou por completo no mês passado, de acordo com o Financial Times.
O Morgan Stanley atribui a queda de setembro, em boa parte, ao volume elevado de dívida que as próprias empresas já haviam captado no início do ano. O banco também aponta uma preocupação crescente entre investidores: se gastos tão altos em infraestrutura de IA vão de fato gerar retorno no longo prazo, num momento em que a construção de novos data centers enfrenta resistência política maior nos Estados Unidos.
Bancos cobram mais e ficam mais seletivos
John Aylward, fundador da gestora de crédito londrina Sona Asset Management, disse durante o Private Capital Summit, promovido pelo Financial Times e pela Latham & Watkins em Londres nesta semana, que o aperto já aparece no dia a dia das negociações.
A pressa por captar recursos também disparou de um ano para o outro. As empresas levantaram cerca de US$ 466 bilhões em dívida vinculada à IA em 2026, segundo o Morgan Stanley, contra US$ 101 bilhões no mesmo período do ano anterior. O volume recorde de oferta deu a investidores de crédito poder para exigir rendimentos mais altos em certos projetos, o que encareceu a captação dos hiperescaladores.
O teste de US$ 100 bilhões para Anthropic e SpaceX
A mudança no humor dos investidores chega em momento delicado para duas operações bilionárias ainda em preparação. Bancos de Wall Street montam um pacote de financiamento de US$ 60 bilhões para Broadcom e Anthropic, enquanto a SpaceX negocia a captação de US$ 40 bilhões para comprar chips da Nvidia, segundo o Financial Times. As duas operações devem ser distribuídas a uma base ampla de investidores nos próximos meses, quando ficará mais claro se o apetite por dívida de IA recuou ou apenas fez uma pausa.
A fatura do data center que ficou sem energia
O caso mais citado pelo Financial Times é o do Project Jupiter, megacampus de data centers da Oracle no Novo México. Cerca de US$ 18 bilhões em empréstimos vinculados ao projeto ficaram sob pressão depois que a empresa emitiu uma notificação de força maior ao enfrentar dificuldade para obter acesso à eletricidade no local. Nos últimos dias, esses empréstimos foram negociados de forma privada a cerca de US$ 0,85 por dólar, segundo pessoas ouvidas pela reportagem.
Rob Dafforn, diretor de investimentos da gestora de dívida problemática Polus Capital, afirmou que a especulação e as operações altamente alavancadas no setor fazem com que parte dos investidores já pague mais do que deveria pelo risco que assume.
Fontes consultadas
- Folha de S.Paulo (C-Level/Financial Times) — Captação de dívida para IA desacelera diante da crescente cautela dos investidores com a onda de endividamento
- Valor Econômico — FT: Emissão de dívida para financiar IA desacelera em meio à cautela dos investidores com o endividamento do setor
- BNN Bloomberg — Corporate bond buyers get picky with flood of AI debt



