Um estudo publicado nesta segunda-feira (28) pelo Programa de Ciência e Política de IA da Universidade de Cambridge (CASP) afirma que a inteligência artificial pode entrar em uma fase de aceleração descontrolada nos próximos anos, batizada pelos autores de explosão de inteligência. O trabalho reúne 22 autores ligados a Anthropic, Microsoft e OpenAI e recomenda novas formas de fiscalização para as empresas que desenvolvem os modelos mais avançados.
Entre os signatários estão Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, Jack Clark, cofundador da Anthropic, e Eric Horvitz, diretor científico da Microsoft. O documento também traz as assinaturas de Geoffrey Hinton, Yoshua Bengio e Andrew Barto, vencedores do Prêmio Turing, considerado a mais alta honraria da ciência da computação. A presença conjunta de executivos de empresas concorrentes chama atenção em um mercado que disputa bilhões de dólares em investimento.
O que é a explosão de inteligência descrita no estudo
Segundo o CASP, o termo descreve uma situação em que sistemas de inteligência artificial passam a acelerar o próprio desenvolvimento, automatizando parte relevante da pesquisa em IA. Nessa hipótese, avanços que hoje levam anos para acontecer passariam a se concentrar em poucos meses, à medida que os modelos ajudam a projetar e treinar as próximas gerações de si mesmos.
Para sustentar o argumento, os autores citam dados internos da Anthropic. A fatia de código aprovado e escrito por inteligência artificial na empresa saltou de um dígito baixo para mais de 80% entre janeiro de 2025 e maio de 2026. No mesmo período, a proporção de pesquisas conduzidas com pouca supervisão humana passou de 1%, em março, para 26%, em agosto.
Os números que embasam a previsão de aceleração
Com base nessa trajetória, o estudo projeta que, em cerca de um ano e meio, o ritmo de progresso da IA poderia ficar dez vezes mais rápido que o atual. Nesse ponto, um ano inteiro de pesquisa equivaleria a cerca de cinco semanas de trabalho. Os autores fazem uma ressalva: a explosão de inteligência descrita no texto ainda não ocorreu, e a projeção depende da continuidade das tendências observadas até agora.
O risco apontado pelo grupo está na velocidade. Uma aceleração rápida reduziria o tempo disponível para que humanos identifiquem e corrijam falhas em sistemas mais poderosos. No quadro extremo descrito pelo estudo, a perda de controle sobre esses sistemas poderia trazer consequências graves para a humanidade.
Quem vai fiscalizar as empresas de IA
O documento propõe um conjunto de medidas de supervisão estatal. As empresas passariam a divulgar relatórios obrigatórios sobre a participação da IA em suas próprias pesquisas e seriam submetidas a auditores independentes, no modelo hoje aplicado a reguladores do setor nuclear e bancário. O texto também sugere limites para a velocidade de avanço de novos modelos e acordos com operadores de data centers para pausar projetos específicos quando necessário.
Nenhuma dessas medidas tem força de lei até o momento. O peso do documento está em quem assina: pesquisadores de OpenAI, Anthropic e Microsoft raramente concordam em público sobre limites para o próprio trabalho, e a adesão de vencedores do Prêmio Turing reforça o argumento de que a fiscalização externa precisa avançar no mesmo ritmo da tecnologia que tenta conter.



