Vítimas de golpes em 42 países perderam US$ 442 bilhões no ano passado, valor que supera algumas estimativas para o comércio global de cocaína, de acordo com a Aliança Global Antifraude. Os dados constam de reportagem da Bloomberg reproduzida pela Exame neste sábado (10), que aponta a inteligência artificial como o combustível dessa expansão.
A série histórica ajuda a dimensionar o salto. Nos Estados Unidos, as perdas com crimes cibernéticos registradas pelas autoridades passaram de US$ 17,8 milhões em 2001 para quase US$ 21 bilhões no ano passado. Uma pesquisa da própria aliança (GASA) indica que 57% dos adultos no mundo já foram alvo de fraudadores.
O que a IA mudou no custo do crime
O texto descreve uma cadeia de serviços baratos. Envios em massa de 10 mil e-mails custam US$ 1, kits básicos de phishing saem por menos de US$ 100 e ferramentas de exploração são vendidas por US$ 500 mensais. Um serviço de tradução em tempo real no Telegram, que dava acesso a roteiros de golpe, custava menos de US$ 20 por mês.
Segundo análise da ZeroFox citada na reportagem, a IA permite que alguém sem nenhuma habilidade de programação monte em minutos uma página falsa de login bancário. Sean Letz, líder de cibersegurança da Marsh Risk na Ásia, disse que tudo ficou barato e fácil. Nas plataformas gratuitas de nove serviços, as páginas de phishing detectadas chegaram a 10.600, mais que quadruplicando em dois anos. Golpistas também imitaram varejistas brasileiros nesse tipo de página.
Fábricas de golpe e plataformas sob pressão
A Interpol identificou vítimas de 89 nacionalidades em centros de golpe, mais de cinco vezes o número do início de 2023. Quase dois terços das vítimas pagam em até 24 horas após o primeiro contato. Já o golpe de investimento romântico de longa duração, conhecido como abate de porcos, pode exigir semanas ou meses de preparação.
Autoridades americanas apreenderam em setembro canais no Telegram e carteiras de criptomoedas da Xinbi Guarantee, plataforma em chinês que processou US$ 24 bilhões em transações. No Camboja, um complexo ligado ao suposto Prince Group, apreendido em janeiro, tinha um manual de cerca de 90 páginas. A Meta removeu 16 milhões de contas e 65 milhões de anúncios, e 94% dos anúncios saíram do ar antes de qualquer denúncia. Nathaniel Gleicher, chefe de políticas de segurança da empresa, afirmou que, quando as contas são bloqueadas, os criminosos criam outras. A Meta é alvo de processo na Califórnia por supostamente lucrar com anúncios fraudulentos.
Quem paga a conta da fraude
Os bancos já sentem o custo. Para o HSBC, a fraude custa US$ 1 bilhão por ano, e o mercado de seguros cibernéticos cresceu 150% em cinco anos, segundo Letz. No Reino Unido, os bancos devolveram £ 354,3 milhões a vítimas de transferências, segundo a UK Finance, enquanto os criminosos levaram £ 1,28 bilhão. Singapura adotou um modelo de responsabilidade compartilhada entre bancos e operadoras de telefonia.
Para empresas e consumidores brasileiros, o dado prático é a rapidez: se a maioria das vítimas paga em um dia, a janela para bloqueio de transações e derrubada de páginas é curta. A Exame menciona, em links relacionados, alta de 45% nos ciberataques no Brasil em julho e ataques com IA três vezes mais rápidos no país que a média global, mas a reportagem da Bloomberg não detalha esses números.



