domingo, 27 de setembro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

IA corta horas faturáveis na advocacia dos EUA e cliente já negocia desconto de 20% a 30%

Levantamento do Citi com 55 grandes escritórios mostra que a receita do setor subiu mais de 12% neste ano, mas 35% das bancas já preveem mudar a cobrança por hora até o fim de 2027 por causa da inteligência artificial.

Advogados em reunião em escritório corporativo nos Estados Unidos
Grandes escritórios de advocacia dos EUA usam inteligência artificial para acelerar tarefas, mas já enfrentam pedidos de desconto nas faturas. Foto: Pexels / Tran Nhu Tuan

Grandes escritórios de advocacia dos Estados Unidos aceleraram a adoção de inteligência artificial em 2026, e clientes corporativos já cobram desconto de 20% a 30% nas faturas quando percebem que parte do trabalho foi feita por sistemas automatizados, segundo reportagem da Folha publicada neste domingo (27), que cita um levantamento do banco Citi sobre o setor jurídico.

O banco ouviu 55 grandes escritórios do país, parte do que o mercado americano chama de BigLaw, e constatou que a receita do setor cresceu mais de 12% nos seis primeiros meses do ano, com aumento de dois dígitos nas taxas médias cobradas por hora trabalhada. Mesmo com esse resultado, 35% das bancas consultadas pelo Citi disseram esperar mudanças no modelo de cobrança por hora já no próximo ano, e 65% projetam alguma alteração até 2035.

O desconto que o cliente já exige

Departamentos jurídicos internos de empresas passaram a revisar item por item quais tarefas das faturas foram executadas por sistemas automatizados e a pedir abatimento nessas linhas. Jennifer Leonard, fundadora da consultoria Creative Lawyers, disse que os clientes agora riscam trechos da conta e avisam que não querem mais pagar por esse tipo de trabalho.

Escritórios como Sullivan & Cromwell, Cooley, Ropes & Gray e Kirkland & Ellis lançaram ferramentas próprias de inteligência artificial neste ano, entre elas o Agreement Analyzer, da Sullivan & Cromwell, e uma plataforma batizada Go Public, da Cooley. A Ropes & Gray desenvolve um sistema de due diligence automatizada, e a Kirkland & Ellis amplia o orçamento interno dedicado à tecnologia.

O modelo tradicional de cobrança por hora trabalhada cria um impasse para essas bancas. Usar inteligência artificial reduz as horas faturáveis em cada caso, e as taxas por hora não sobem rápido o suficiente para compensar a perda de receita. Não usar a tecnologia, por outro lado, abre espaço para concorrentes cobrarem menos pelo mesmo serviço.

A concorrência dos escritórios nativos de IA

Parte dessa pressão vem de escritórios criados para cobrar preço fixo definido antes do trabalho começar, apoiados em agentes de inteligência artificial em vez de equipes grandes de advogados. A Norm AI, uma dessas empresas, é um dos exemplos citados pela reportagem.

A Norm AI captou US$ 260 milhões em julho, em uma rodada que avaliou o negócio em US$ 1,2 bilhão, liderada por Khosla Ventures, Blackstone e Bain Capital. Os três investidores também entraram na lista de clientes da startup, segundo dados citados pela reportagem.

Quem paga a conta do desconto

Para as empresas clientes, o efeito imediato é a possibilidade de renegociar contratos com base no tempo real gasto por sistemas automatizados, em vez do número de horas registradas pelos advogados. Para os escritórios tradicionais, a conta recai sobre a forma de remunerar sócios e associados, hoje atrelada ao volume de horas faturadas.

Se a previsão do Citi se confirmar, um em cada três grandes escritórios dos Estados Unidos terá revisado esse modelo de remuneração até o fim do próximo ano, e dois em cada três terão feito alguma mudança até 2035. Enquanto o prazo não chega, o cliente corporativo mantém a estratégia de riscar linhas da fatura e negociar caso a caso.

CA

Repórter de Negócios do Real Nacional. Cobre empresas, fusões e aquisições, mercado de capitais e a economia real das companhias brasileiras. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.