Empresas americanas trocam modelos de inteligência artificial mais caros da OpenAI e da Anthropic por opções abertas e mais baratas, mostrou reportagem publicada pela Folha nesta segunda-feira (28). A AT&T, uma das companhias à frente da mudança, elevou a fatia de sistemas de código aberto em suas operações de 20%, em maio, para 40% atualmente, e projeta chegar a 60% nos próximos meses. A troca pode reduzir em até 80% o custo de infraestrutura de inteligência artificial da empresa.
O movimento aparece em dois rastreadores independentes de consumo de IA nos Estados Unidos. Segundo a plataforma OpenRouter, citada pela revista Exame, a fatia de modelos abertos no uso corporativo do país saltou de uma faixa entre 6% e 13% em fevereiro para entre 57% e 67% em 14 de setembro. Um levantamento separado da Vercel mostra avanço parecido, de 11% em janeiro para 55% em agosto.
Por que o corte de custo virou prioridade
Companhias como a AT&T, a Airbnb e a Deloitte reduzem a dependência de sistemas fechados porque o gasto corporativo com tecnologia da informação disparou nos últimos dois anos. Modelos de código aberto, como o Llama, da Meta, o Gemma, do Google, e sistemas chineses como o DeepSeek e o Qwen, da Alibaba, rodam aplicações de IA por uma fração do preço cobrado pelos sistemas de ponta. O DeepSeek V3.1 cobra US$ 0,25 por milhão de tokens processados, contra US$ 3 do Claude 3.5 Sonnet, da Anthropic, uma diferença de doze vezes. O Qwen Plus, da Alibaba, cobra US$ 0,40 por milhão de tokens, ante US$ 5 do Claude Opus.
Peter Walker, chefe de insights da OpenRouter, disse à Exame que os modelos abertos chineses já cumprem tarefas complexas com confiabilidade.
Modelos chineses avançam fora da China
A Qwen, da Alibaba, já soma 1 bilhão de downloads e responde por 40% dos novos modelos publicados na plataforma Hugging Face, de acordo com a Exame. Fora dos Estados Unidos e da Europa, a adoção é maior: modelos chineses respondem por 67% dos tokens processados em países do sul global, segundo o mesmo levantamento. O avanço ocorre mesmo com o desempenho desses sistemas ainda entre 80% e 90% da capacidade dos modelos da OpenAI e da Anthropic, conforme avaliações citadas pela reportagem.
Harpreet Arora, chefe de infraestrutura agêntica da Vercel, disse que os modelos chineses ficaram capazes o suficiente para mais tarefas a um custo bem menor.
Quem sente o impacto na receita da OpenAI e da Anthropic
A migração pressiona diretamente a receita da OpenAI e da Anthropic, que cobram mais caro pelos modelos de ponta e dependem do consumo corporativo para sustentar contratos bilionários de infraestrutura em nuvem. Analistas apontam outro motivo para a troca, além do preço: o controle sobre a própria infraestrutura de dados. Ao rodar um modelo aberto em servidores próprios, a empresa evita depender de um único fornecedor de nuvem e mantém informações sensíveis fora de sistemas de terceiros.
Para a OpenAI e a Anthropic, o desafio agora é justificar o preço mais alto dos modelos fechados com ganhos de desempenho que compensem a diferença de custo apontada por clientes corporativos. No mercado americano de IA, convivem hoje dois perfis de cliente: o que paga pela capacidade máxima dos sistemas de ponta e o que aceita um modelo mais barato para tarefas do dia a dia.
Fontes consultadas
- Folha (c-level) — Empresas americanas aderem a modelos de IA 'abertos' mais baratos
- Exame — Como a IA barata da China tomou conta das empresas e por que isso assusta os EUA
- Brasil em Folhas — Empresas dos Estados Unidos migram para IA de código aberto
- Roberto J. Oliveira — IA de Código Aberto: por que as maiores empresas americanas estão abandonando os modelos proprietários



