A OpenAI, dona do ChatGPT, colocou em um repositório público, na terça-feira (6), mais de 350 artigos de matemática produzidos por inteligência artificial, segundo o New York Times, citado pela Exame. O material soma dezenas de milhares de páginas e cobre álgebra, teoria dos números, topologia, lógica matemática e ciência da computação teórica.
Entre os resultados está a prova da chamada hipótese quase-Riemann, uma conjectura relacionada à hipótese de Riemann. Esta é uma das sete questões dos Problemas do Milênio, cada uma com prêmio de US$ 1 milhão do Clay Mathematics Institute. Segundo a Exame, nenhum dos trabalhos resolve por inteiro os cinco problemas que seguem em aberto, mas o conjunto traz avanços diretos ou indiretos ligados a todos eles.
Ken Ono, da Universidade da Virgínia e fundador da Axiom Math, afirmou não saber se o resultado sobre quase-Riemann ajuda a resolver a conjectura original. A distância entre as duas coisas é o ponto que os especialistas ainda precisam medir.
Como os matemáticos reagiram
Alex Kontorovich, da Universidade Rutgers, disse que, se um ser humano tivesse produzido apenas um dos resultados, o trabalho poderia render uma Medalha Fields. Martin Bridson, de Oxford e presidente do Clay Mathematics Institute, classificou a divulgação como impressionante e disse que, até pouco tempo atrás, era difícil imaginar que a matemática pudesse avançar tanto em um único dia.
Ono contou que a primeira reação de muitos colegas foi descrita como um soco no estômago, seguida de entusiasmo. O matemático francês Jean-Pierre Serre, de 100 anos, encontrou no resultado 46 a confirmação de uma conjectura que ele formulou há quase sete décadas. Serre usa ferramentas de IA para localizar informações e, com colegas, para checar erros, e avalia que a tecnologia pode facilitar o aprendizado e reduzir parte do prazer da descoberta entre os mais jovens.
Três textos retirados e uma fila de verificação
Até quinta-feira (8), a OpenAI havia retirado três artigos e corrigido outros. Um porta-voz da empresa disse que os erros são corrigidos e que os trabalhos são removidos quando os problemas não têm solução.
Bryna Kra, da Universidade Northwestern e ex-presidente da Sociedade Americana de Matemática, disse que uma das provas era difícil de acompanhar do jeito que foi apresentada. Ela também levantou a dificuldade de verificar dezenas de milhares de páginas sem revisão por pares e observou que alguns textos podem ter se apoiado em argumentos ainda não publicados, o que pode desestimular pesquisadores a compartilhar ideias antes de publicá-las.
O que muda para a formação de quem pesquisa
Para estudantes de doutorado ouvidos pelo jornal, a discussão já passou da validade dos teoremas. Yuanning Zhang, da Northwestern, descreveu a reação como vertigem e disse que, se as soluções forem confirmadas, a pesquisa assistida por IA pode estar começando a operar em escala industrial. Thomas Carlson, da Universidade Estadual de Montana, questionou como a formação acadêmica deve ser avaliada à medida que essas ferramentas avançam.
Kai Shaikh, da Universidade de Toronto, argumentou que os teoremas não esgotam a matemática: o processo de investigação, as dificuldades e o contexto das descobertas também fazem parte do trabalho. Sem revisão por pares na largada, a conferência do material fica por conta da comunidade, e é ela que dirá quantos dos mais de 350 artigos sobrevivem.



