A reforma tributária já começou a redesenhar a malha logística das grandes empresas no Brasil. Pesquisa da consultoria Ilos com 110 companhias de faturamento médio de R$ 22 bilhões, publicada nesta quarta-feira (9) pelo Valor Econômico, aponta que 21% delas deverão mudar a localização de seus centros de distribuição por causa das novas regras. Mais da metade, 51%, afirma ter hoje custos logísticos maiores só para obter benefício tributário. Outras 54% mantêm algum CD com incentivo fiscal, o que deixa de existir.
Na prática, isso significa estoque longe do consumidor porque a economia de imposto ainda paga o frete extra. Leonardo Julianelli, sócio-diretor da Ilos, diz que a mudança não é só de endereço: é de fluxo. Mais da metade das grandes, segundo ele, opera rotas que não fazem sentido logístico. Os CDs não vão sumir, vão ser redimensionados.
O fim da guerra fiscal
O ICMS, principal isenção usada pelos Estados para atrair galpão, dá lugar ao IBS. No federal, entra a CBS. A CBS começa em 2027. ICMS e ISS só saem de vez em 2033, com transição a partir de 2029. Outra virada: o tributo deixa de ser recolhido no local de produção ou armazenagem e passa a ser cobrado no Estado de consumo. Cai o incentivo para o Estado oferecer ICMS só para puxar fábrica e CD.
Eduardo Mollo, da Galeazzi & Associados, estima que cerca de 70% dos CDs analisados pela consultoria estavam fora de São Paulo. Com a reforma, essa lógica perde peso. Extrema, no sul de Minas, virou o símbolo: menos de 100 mil m2 de imóvel logístico em 2017, perto de 850 mil m2 em 2022, segundo a CBRE, na combinação de proximidade com São Paulo e benefício de ICMS.
Quem já move a malha
Camila Lima, vice-presidente de Operações da FedEx no Brasil, diz que clientes em localidades subsidiadas já abriram conversa de revisão. Tem quem deve ficar, não pelo imposto, mas porque a região cresce e faz sentido comercial.
No e-commerce, a malha foi moldada pelos incentivos. A Shopee saiu de 16 para 26 CDs neste ano, alta de mais de 60% sobre o fim de 2025, com quatro unidades no Nordeste, inclusive Itaitinga (CE), aberta em maio. Rafael Flores, da expansão da Shopee, afirma que o Nordeste ganha relevância, mas que a decisão é sobretudo proximidade da demanda.
O Mercado Livre, com 3,3 milhões de m2 construídos no Brasil, descentraliza estoques rumo ao Norte e ao Nordeste, segundo Luiz Vergueiro, diretor sênior de operações logísticas. Questionado sobre o impacto da reforma, não comentou. A Amazon, com mais de 300 centros no país, inaugurou um em Salvador em maio e disse que acompanha as atualizações regulatórias.
Atraso no mapa
Só 13% das empresas da Ilos mapearam os efeitos da reforma na cadeia até 2033. Outras 41% fizeram mapeamento parcial, 21% olharam só o imediato e 25% ainda não começaram. Julianelli disse que o baixo nível de mobilização surpreendeu. Richard Edward Dotoli, do SiqueiraCastro, lembra que o ICMS só some em 2033: na transição, o benefício ainda tem valor, mas o galpão de agora precisa servir a uma tributação diferente no fim da década.



