terça-feira, 20 de outubro de 2026 · Edição diária

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Para mudar a reforma tributária, o PL de Flávio ainda precisaria de 187 votos na Câmara

A maior parte das regras está na Constituição e só muda por PEC, com 308 deputados e 49 senadores. O PL terá 121 cadeiras na Câmara e cerca de 28 no Senado em 2027, e a alíquota combinada estimada hoje é de 27,91%.

Plenário do Congresso Nacional, em Brasília, onde qualquer mudança na reforma tributária precisaria ser votada
Mudanças na reforma tributária dependem de votações no Congresso, em Brasília, seja por lei complementar ou por emenda constitucional. Foto: Pexels / Nataliya Vaitkevich

Quem vencer o segundo turno terá de negociar com o Congresso, com os estados e com os municípios para alterar a reforma tributária, segundo levantamento publicado pela Exame nesta terça-feira (20). A maior parte das regras está na Constituição, e só uma proposta de emenda constitucional (PEC) as modifica: são necessários 308 deputados e 49 senadores, em duas votações em cada Casa.

Flávio Bolsonaro (PL) propõe rever o texto. O plano registrado no TSE fala em limitar a alíquota do IVA, reduzir impostos sobre investimento e zerar a tributação de combustíveis e energia. Lula (PT) trata a reforma como algo a consolidar e prioriza a progressividade, com isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil e mais tributo sobre rendas altas.

A conta dos votos no Congresso

Para uma lei complementar, o mínimo é de 257 deputados e 41 senadores. O PL sozinho ficaria 136 votos abaixo na Câmara e 13 abaixo no Senado. Para uma PEC, a distância sobe para 187 deputados e 21 senadores.

A bancada do partido cresceu, mas não resolve. O PL passa de 97 para 121 deputados, a federação PT, PCdoB e PV vai de 82 para 88, e União Brasil e PP juntos caem de 105 para 87. No Senado, o PL elegeu 19 das 54 vagas em disputa e deve chegar a 28 das 81 cadeiras em 2027, a maior bancada no início de uma legislatura desde 1988.

O advogado tributarista Cristiano Luzes, sócio do escritório Loyo, Moutinho, Luzes e Cisneiros, avalia que um governo Flávio teria base sólida para aprovar uma lei complementar. Ele lembra, porém, que cerca de 5 mil municípios e 27 entes estaduais têm interesse direto no mecanismo de pagamento dividido, e que governadores e lideranças regionais pesam no Congresso.

Split payment: o ponto mais exposto

O split payment separa IBS e CBS no momento do pagamento e envia o valor direto ao fisco, de modo que o vendedor recebe só o restante. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, respondeu "claro que sim" em 6 de outubro, quando perguntada se o mecanismo acabaria, e disse que a revisão não reabriria o debate constitucional. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defende o instrumento como arma contra a sonegação.

A Receita Federal planejou os primeiros testes para 15 de outubro de 2026, em ambiente controlado e sem transações reais. A plataforma deve estar disponível em 2027, só entre empresas e de forma opcional. A Receita usa 2028 como horizonte para a obrigatoriedade, mas nenhuma norma fixa essa data, e um ato conjunto do Comitê Gestor e da Receita pode mudar o ritmo sem nova lei. Acabar com o mecanismo exigiria lei complementar, segundo a advogada Itana Moreira, do Urbano Vitalino Advogados, para quem decreto ou medida provisória seriam inconstitucionais.

Alíquota de 27,91% e quem paga a conta

Em 29 de julho, o Comitê Gestor do IBS aprovou resolução que estima a alíquota combinada em 27,91%, sendo 18,7% de IBS e 9,21% de CBS. A Lei Complementar 214 fixa um teto de 26,5%, e, se a estimativa o superar, o Executivo precisa propor ao Congresso medidas para reduzi-la. O governo divulgará a alíquota oficial depois das eleições.

Cortar tributos de combustíveis e energia, como propõe o PL, esbarra na regra constitucional que obriga a compensar qualquer perda de receita federal com ajuste nas alíquotas de referência. Na prática, a redução num setor tende a elevar a taxa dos demais, a menos que outra receita a cubra. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, afirmou que a alíquota poderia chegar a 21% sem subsídios setoriais, mas não disse quais seriam cortados.

O IBS pertence a estados e municípios, que definem as próprias alíquotas, e o Senado fixa apenas a referência. O presidente controla somente a CBS federal, que pode ser alterada por lei ordinária, ao custo de abrir mão de arrecadação. Parte das empresas, sobretudo da construção e do setor imobiliário, que têm regras de transição mais generosas, desacelerou a preparação à espera do resultado. Itana Moreira recomenda ouvir quem implementa a reforma, como o Comitê Gestor, a Receita e o Serpro, e lembra que FMI e OCDE produzem material sobre o tema, o que dificulta reverter o desenho.

MB

Repórter de Política e Economia do Real Nacional. Cobre Brasília, Congresso, tribunais, contas públicas e as eleições de 2026. Mais textos · Expediente · Política editorial

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