quarta-feira, 7 de outubro de 2026 · Edição diária

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Strategy abandona o BI de painéis e leva Banco Central e PGR para uma camada de dados de IA

Dona de 848 mil bitcoins, a Strategy descontinua o modelo antigo de relatórios e dashboards e migra em dois anos os mais de 150 clientes brasileiros para o Mosaic. Entre 50% e 60% já estão em transição, segundo o diretor regional Mariano Urman.

Painel de análise de dados em tela de computador
A Strategy, de Michael Saylor, tenta reposicionar seu software como base de dados para agentes de inteligência artificial. Foto: Pexels / Lukas Blazek

A Strategy, empresa de Michael Saylor conhecida como a maior acumuladora corporativa de bitcoin, está encerrando o modelo antigo de seu software de business intelligence e movendo toda a base de clientes brasileiros para uma plataforma nova, o Mosaic. Segundo a NeoFeed, que ouviu o diretor regional para Brasil e América do Sul, Mariano Urman, a migração deve ser concluída em até dois anos.

A empresa tem mais de 150 clientes no país. Entre eles estão o Banco Central e a Procuradoria-Geral da República, no setor público, e Bradesco Seguros, Totvs e Tim, no privado. De acordo com Urman, entre 50% e 60% desses clientes já estão no processo de transição. A Strategy não divulga o faturamento obtido no Brasil.

O que o Mosaic faz com os dados

Lançado em junho de 2025, o Mosaic funciona como uma camada semântica entre as bases de dados da empresa e as ferramentas que as consultam. Ele organiza as relações entre bases diferentes, guarda as definições, os cálculos e as regras de cada negócio e preserva as permissões de acesso. Os dados não são reunidos em um único repositório: a plataforma opera sobre vários bancos, ambientes de nuvem e ferramentas de análise ao mesmo tempo.

A lógica é que uma mesma pergunta pode ter respostas diferentes conforme a definição usada. Um agente de IA, antes de responder, precisa saber qual conceito aplicar, onde buscar a informação e quais dados o usuário tem autorização para ver. O Mosaic centraliza essas regras para que humanos e agentes trabalhem com a mesma versão dos números.

Urman resumiu a mudança de foco dizendo que, por 20 anos, a Strategy foi uma ferramenta para criar relatórios e painéis, e que esse modelo morreu. Na avaliação dele, o problema hoje não é o acesso aos modelos de IA, mas ter os dados organizados e dar contexto a eles.

Bitcoin e software no mesmo balanço

A reorientação não tira o bitcoin da história. Em atualização de 5 de outubro, a Strategy somava 848 mil bitcoins, adquiridos por cerca de US$ 64 bilhões. Desde 2020, Saylor financia as compras com emissão de ações, dívida conversível e ações preferenciais. Urman disse que a companhia é, ao mesmo tempo, pioneira em investimento em bitcoin e líder em software de inteligência de negócio.

No primeiro semestre de 2026, a receita global foi de US$ 246,7 milhões, alta de 9,4%. A linha de assinaturas cresceu 56,2%, para US$ 121,7 milhões, e passou de pouco mais de um terço para quase metade do total. Licenças caíram 36,5% e suporte recuou 19,3%, movimento típico de quem troca a venda de software instalado por cobrança recorrente. A NeoFeed observa que o balanço não separa quanto do avanço das assinaturas vem do Mosaic.

A concorrência já ocupa o mesmo terreno

A Strategy não está sozinha na aposta de que organizar dados vale mais do que mostrá-los. A Microsoft usa os modelos semânticos do Power BI para dar contexto ao Copilot, e a Snowflake oferece as chamadas semantic views. Segundo a NeoFeed, caberá à Strategy demonstrar que uma camada adicional de organização e governança gera retorno suficiente para justificar o investimento do cliente.

Para os clientes brasileiros, a mudança tem um efeito prático imediato: a versão antiga está sendo descontinuada, e quem não migrar dentro do prazo de dois anos fica sem o modelo que usa hoje. Para órgãos como o Banco Central e a PGR, a troca envolve regras de acesso e definições de dados que precisam ser reconstruídas na plataforma nova. Já a Strategy depende de a migração converter uma base de licenças em assinaturas, receita que cresce mais rápido do que o restante do negócio.

CA

Repórter de Negócios do Real Nacional. Cobre empresas, fusões e aquisições, mercado de capitais e a economia real das companhias brasileiras. Mais textos · Expediente · Política editorial

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