O cofundador do Waze, Uri Levine, afirmou em entrevista ao Exame Insight, publicada nesta quarta-feira (14), que a inteligência artificial torna mais difícil criar empresas de US$ 1 bilhão. Segundo ele, construir um produto ficou mais barato e rápido, mas a mesma facilidade vale para todos os concorrentes.
Levine atua hoje em 12 startups, como empreendedor ou investidor. O Waze foi vendido ao Google por US$ 1,1 bilhão, valor que, segundo ele, era o maior já pago por um aplicativo na época.
Cinco engenheiros em vez de 30
Para ilustrar o efeito da tecnologia, Levine calculou que o Waze precisaria hoje de 5 a 6 engenheiros, e não dos 30 que teve. Ele disse que não está longe o dia em que empresas bem-sucedidas terão equipes de 10 pessoas ou menos.
O empreendedor afirmou que um protótipo pode ser criado em duas semanas. O efeito, de acordo com ele, é uma corrida de cópias: recebe toda semana e-mails de startups de gestão de carteiras com IA e vê centenas de empresas com propostas parecidas no mercado.
A conclusão dele é que o gargalo deixou de ser a construção e passou a ser a atenção do cliente. Se cinquenta empresas entram com a mesma proposta, o resultado pode ser uma disputa entre 100 ou 500 concorrentes. Levine citou ainda que mais da metade das startups fracassa porque não resolveu problema algum.
Começar pelo problema, não pelo código
Dessa avaliação sai o conselho central de Levine, que é o título do livro que lançou em 2023 pela editora Citadel: apaixonar-se pelo problema, não pela solução. Ele defende validar a dor com usuários reais antes de escrever a primeira linha e lembrou a frase atribuída a Albert Einstein, de gastar 55 minutos entendendo um problema e 5 minutos pensando em soluções.
Levine também descreveu a IA como uma revolução maior do que o computador pessoal, a internet e o iPhone, porque muda várias indústrias ao mesmo tempo. Entre os setores que considera promissores no Brasil, citou fintechs de aposentadoria, serviços médicos para áreas rurais e agricultura e alimentação.
Sobre a própria venda, disse que, com o que sabia na época, ela fazia sentido. Hoje, afirmou, provavelmente não tomaria a mesma decisão.
O recado para startups brasileiras
O Brasil, com cerca de 220 milhões de habitantes, oferece mercado interno grande o bastante para que muitas startups cresçam só localmente. Levine avalia que isso cria uma cultura local forte e faz as empresas chegarem tarde ao exterior. Ele contrastou o caso com os Estados Unidos, Israel, Suécia e Estônia, de onde saem líderes globais.
A recomendação é internacionalizar cedo e olhar mercados maiores, como Indonésia e o restante da Ásia, em vez de se limitar a Argentina, Colômbia e México. O empreendedor lembrou que cerca de 90% do negócio do Nubank, segundo ele, está no Brasil.
Na prática, a mensagem para quem pretende abrir uma startup de IA é que o custo de entrada caiu e o custo de ser notado subiu. Levine anunciou, na entrevista, uma escola online exclusiva para o Brasil, com aulas em vídeo e sessões ao vivo.



