A Microsoft criou o Xbox Labs, uma divisão de pesquisa em inteligência artificial dentro da área de games, segundo memorando interno enviado pela CEO do Xbox, Asha Sharma, nesta terça-feira (13). O grupo reúne um número reduzido de desenvolvedores, engenheiros e cientistas, de acordo com reportagem do Canaltech publicada nesta quarta-feira (14).
No texto, Sharma disse que a empresa observou, nas últimas semanas, jogos sendo descompilados e reconstruídos com apoio de IA para rodar em equipamentos para os quais nunca foram projetados. A executiva afirmou que o novo laboratório abre um caminho para a Xbox explorar essas técnicas internamente, em vez de deixar o tema apenas nas mãos de desenvolvedores externos. Ela não deu prazo para os primeiros resultados do grupo nem disse quantas pessoas vão compor a equipe permanentemente.
Os jogos que motivaram a resposta da Xbox
O memorando cita projetos recentes de recompilação que ganharam repercussão entre jogadores. Um deles recriou God of War 3 em versão nativa para PC, com suporte a 240 quadros por segundo, bem acima do limite original do jogo. Outros portaram títulos clássicos da franquia Halo para o Nintendo 3DS e para navegadores de internet, enquanto um terceiro combinou mecânicas de Minecraft e Skyrim para permitir construção com blocos dentro de um cenário medieval.
Nenhum desses projetos teve autorização da Microsoft ou dos estúdios responsáveis pelos jogos originais, segundo o Canaltech. A empresa não informou se pretende notificar os autores dos projetos citados no memorando ou se vai negociar o uso de ferramentas semelhantes dentro de seus próprios produtos.
Projetos desse tipo se multiplicaram à medida que ferramentas de IA generativa passaram a facilitar a leitura de código binário e a reconstrução de jogos antigos sem acesso ao código-fonte original. Estúdios e publishers como Microsoft, Sony e Nintendo historicamente trataram esse tipo de iniciativa como violação de propriedade intelectual, e a Xbox é, segundo o Canaltech, a primeira entre as grandes fabricantes de consoles a anunciar uma equipe dedicada a estudar o fenômeno.
A CEO que prometeu barrar a “IA ruim”
Sharma assumiu o comando da divisão de games da Microsoft em 21 de fevereiro deste ano, no lugar de Phil Spencer, que estava à frente do Xbox desde 2014 e se aposentou da empresa, segundo a Bloomberg Línea. Ela chegou ao cargo com experiência prévia em Meta e Instacart e foi escolhida, entre outros motivos, por seu histórico em projetos de inteligência artificial.
Na época, Sharma disse que a Xbox não encheria sua plataforma de conteúdo gerado por IA sem qualidade, de acordo com o Tecnoblog, e afirmou que não teria tolerância com o que chamou de “IA ruim” nos jogos. O Xbox Labs, pelo que descreve o memorando, não se destina a gerar conteúdo para jogadores finais: o foco está em entender, e possivelmente absorver, as técnicas de recompilação que hoje partem de fora da empresa.
Quem corre risco com jogos recriados sem licença
A recompilação com IA deixou de ser um nicho técnico restrito a programadores experientes e passou a disputar espaço entre jogadores que buscam versões mais rápidas ou compatíveis com hardware atual. Para desenvolvedores independentes que hoje fazem esse trabalho sem licença, a entrada oficial da Microsoft no tema pode significar parceria ou concorrência direta, já que a empresa tem acesso ao código original dos jogos e aos direitos sobre eles.
O memorando não detalha se o Xbox Labs vai oferecer ferramentas ao público, restringir ainda mais o uso de IA por terceiros para recriar jogos ou buscar acordos com quem já desenvolve esse tipo de projeto. Também não ficou claro se o grupo vai seguir as mesmas diretrizes que Sharma estabeleceu para conteúdo gerado por IA quando assumiu o cargo, em um momento em que a linha entre pesquisa interna e cópia não autorizada de jogos antigos ainda não tem resposta definida pela empresa.



