Mark Zuckerberg, fundador e presidente executivo da Meta, reconstruiu em menos de dois anos a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e colheu decisões que blindam a empresa de regras mais duras sobre inteligência artificial, segundo reportagem da CNN Brasil publicada neste sábado (11). O levantamento reconstitui como a Meta saiu de uma relação de hostilidade aberta, com Trump banido do Facebook e do Instagram em 6 de janeiro de 2021 após o ataque ao Capitólio, até se tornar uma interlocutora próxima do governo republicano.
A virada custou dinheiro. A Meta doou US$ 1 milhão para a posse presidencial de Trump e pagou outros US$ 25 milhões em acordo judicial para encerrar um processo aberto pelo próprio presidente contra a suspensão de suas contas nas redes sociais da empresa, segundo a reportagem. O relacionamento, porém, quase ruiu no meio do caminho: em julho de 2024, Trump chegou a ameaçar Zuckerberg publicamente no Truth Social, poucas semanas antes de sofrer uma tentativa de assassinato em Butler, na Pensilvânia.
O time republicano que a Meta trouxe para Washington
A reaproximação veio com uma reformulação no time de relações institucionais da empresa. A Meta substituiu Nick Clegg, ex-vice-primeiro-ministro britânico de centro-esquerda que chefiava os assuntos globais da companhia, por Joel Kaplan, operador republicano que passou a ser o principal enviado da Meta à capital americana. A empresa também contratou Dina Powell McCormick, ex-vice-conselheira de segurança nacional dos Estados Unidos, para presidir a companhia. Dina é casada com o senador republicano Dave McCormick, da Pensilvânia, segundo a reportagem. Trump comentou a contratação em tom de elogio: "Como ele pensou nisso? Foi uma boa jogada, ele é muito inteligente", disse o presidente, de acordo com a CNN Brasil.
Os sinais de aproximação pessoal se multiplicaram depois disso. Em junho de 2025, Zuckerberg assistiu a uma luta do UFC no gramado da Casa Branca ao lado de Trump. Sobre a tentativa de assassinato do ano anterior, o executivo da Meta chegou a dizer que ver o presidente "se levantar depois de levar um tiro no rosto e erguer o punho no ar com a bandeira americana" foi uma das coisas mais marcantes que já viu.
Os resultados práticos para a Meta em Washington
A reportagem atribui à proximidade com Trump uma série de resultados concretos para a Meta. O governo ajudou a travar o avanço de uma proposta de agência reguladora de inteligência artificial defendida por empresas rivais do setor. A Casa Branca também teria contribuído para livrar Zuckerberg de um depoimento direto no Senado: o senador Chuck Grassley, que lidera o Comitê Judiciário, mudou o plano de convocação e chamou o número dois de Zuckerberg no Instagram, Adam Mosseri, no lugar do próprio presidente da Meta. A empresa ainda revogou políticas de moderação de conteúdo que políticos conservadores acusavam de perseguir vozes de direita.
Em setembro e outubro de 2025, Zuckerberg participou de reuniões sobre inteligência artificial na Casa Branca ao lado de executivos como Jensen Huang, da Nvidia, e Dario Amodei, da Anthropic. Dessas conversas nasceu um texto redigido por Zuckerberg com contribuições de Huang, descrito pela reportagem como moralmente vinculativo, mas sem força legal relevante. O documento foi assinado por diversos presidentes de empresas de tecnologia e chegou a circular com um erro de digitação na grafia de "Estados Unidos". Zuckerberg definiu a iniciativa como um ponto de partida: "A ideia não é que esta seja a única coisa que faremos, mas sim que seja um começo", disse o executivo, segundo a CNN Brasil.
Quem decide as regras da IA nos Estados Unidos
Com a proposta de agência reguladora travada e sem lei federal específica sobre inteligência artificial, as normas que hoje orientam o comportamento das big techs americanas nascem de compromissos voluntários como esse, negociados diretamente entre executivos e a Casa Branca. Para empresas de tecnologia que disputam espaço com a Meta, incluindo as que operam no Brasil, o episódio mostra que o maior mercado de inteligência artificial do mundo segue sem marco regulatório obrigatório para o setor, enquanto o Congresso brasileiro discute o PL 2338, que tenta avançar em sentido contrário, com regras de responsabilização para sistemas de IA.



